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Crónicas e opinião

Stella e outros ecos da degradação populista

DR
João Mendes

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em

Porque é que premiamos a má educação, o desrespeito e a arrogância?

Por esta altura, já quase toda a gente viu o vídeo. Stella, uma jovem moçambicana a residir em Portugal, está a divertir-se com os amigos no Cais do Sodré. No local onde se encontram, decorre um concerto do músico português Bluay. Embriagada, Stella decide invadir o palco, interrompe a actuação, rouba o microfone ao artista e começa a improvisar uma parvoíce qualquer sobre o Pingo Doce.

O que aconteceu a seguir?

Exactamente o que não esperaríamos há alguns anos: a comportamento repugnante de Stella viralizou, dezenas de milhares correram a segui-la nas redes sociais, várias marcas surgiram a oferecer-lhe parcerias, choveram convites para podcasts e, no espaço de horas, Stella estava a cobrar 2 mil euros por entrevista e a aparecer em canais como a CMTV e a TVI.

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Resumindo, em bom português e sem correctês, Stella foi premiada por ser mal-educada, por faltar ao respeito ao Bluay e pela tremenda arrogância de achar que tinha o direito de interromper o concerto. E o mais incrível é haver quem acredite que criticar esta postura é inveja do “sucesso” alcançado pela jovem. Usar o pseudo-argumento da “inveja” para rebater uma crítica legítima tem tanto de clássico (sobretudo na política) como de patético. Neste caso fica a nu o quão ridículo é.

Adiante.

Até aqui, nada de novo. Vivemos um tempo em que a egotrip vende, a polémica vende ainda mais e a má educação, bem como a falta de respeito, foi elevada a virtude da era do digital. Basta observar o sucesso do comportamento hooligan da extrema-direita na Assembleia da República para perceber o quanto tudo isto compensa.

Mas o que mais me choca, neste caso, é a forma como um comportamento condenável, de alguém que interrompeu e desrespeitou o trabalho de outra pessoa, é convertido numa oportunidade de marketing e, ao invés de repudiado, acaba premiado por empresas, órgãos de comunicação social e pessoas que, suspeito, não teriam ficado muito agradadas caso estivessem no lugar do Bluay.

E tudo isto, caro leitor, confrontou-me com várias perguntas:

Desde quando é que invadir um palco, interromper um concerto e retirar o microfone da mão de um artista passou a ser um comportamento digno de recompensa?

Que mensagem estamos a passar aos milhares de jovens que assistiram a tudo isto?

Que podem levantar-se a meia da aula e tirar o giz da mão do professor?

Que podem interromper uma peça de teatro e ocupar o lugar do actor?

Que podem interromper uma missa para dizer parvoíces no púlpito?

Que, para resumir, se fizerem barulho, forem mal-educados e faltarem ao respeito aos outros, alguém acabará por lhes oferecer notoriedade numa bandeja?

Porque uma coisa é um vídeo tornar-se viral.

Outra, muito diferente, é uma sociedade decidir premiar o comportamento.

E é precisamente isso que me inquieta.

Porque cada comportamento que recompensamos torna-se um comportamento que incentivamos.

E, sinceramente, custa-me acreditar que seja este o incentivo que queremos deixar à geração que vem a seguir.

Mas se funciona para os populistas, como Ventura, Trump ou Bolsonaro, regra geral mal-educados, sem pingo de respeito pelos demais e exímios executantes de uma retórica delinquente, o que podemos esperar de miúdos como a Stella, que já nasceram neste mundo em que a economia da atenção se tornou valor absoluto e em que, aparentemente, os fins justificam quaisquer meios?

Artigo de opinião de João Mendes

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