Crónicas e opinião
Desabafos de uma Mãe Imperfeita | Quando setembro nos pede para recomeçar
Há algo em setembro que me faz sentir que o ano está a recomeçar.
Talvez seja por fazer anos logo no início do mês. Talvez seja porque começa um novo ano escolar. Talvez seja porque começa um novo ano de trabalho também para mim.
Ou, então, talvez seja porque setembro tem esta coisa bonita de nos fazer olhar para trás e para a frente ao mesmo tempo.
Alguns ainda estão de férias, com os despertadores ainda desligados. As manhãs ainda não têm hora marcada e há ainda dias em que não há um plano definido.
Mas setembro já se sente. Começa a aparecer devagarinho nas conversas, nas listas de material escolar a comprar, nas mochilas e nos livros escolares que temos de encomendar, nos horários, que ainda nem conhecemos, mas já sabemos que vão chegar e naquela sensação de que, dentro de poucos dias, alguém vai voltar a dizer:
“Despacha-te, vamos chegar atrasados!”
Talvez seja por isso que o regresso começa antes das aulas começarem. Porque não voltamos apenas à escola ou ao trabalho, voltamos a um ritmo. E, muitas vezes, o corpo ainda está de férias enquanto a cabeça já está a planear um novo ano.
Falamos muito da adaptação das crianças e jovens à escola. Do sono, dos horários, da concentração, da ansiedade, da dificuldade em voltar a estudar depois de semanas de férias…
Mas há algo em que penso cada vez mais:
E se a família também precisar de se adaptar?
Porque setembro pede a reorganização de uma casa inteira. De repente, será preciso voltar a caber tudo num dia só. Quem os leva à escola e quem os vai buscar? Quais os horários dos treinos e atividades? Quem prepara os lanches e as garrafas de água? Quem vai às reuniões? Quem se lembra do material que falta?
E, no meio de toda esta pequena engenharia familiar, ainda esperamos que todos regressem prontos.
Prontos para acordar cedo, para estudar, para se organizar. Prontos para que tudo arranque bem.
E é aqui que setembro nos prega uma partida.
Porque não traz só horários e o regresso às rotinas. Traz também expectativas. As nossas e as deles.
“Este ano tens de te organizar melhor.”
“Agora estás num ano mais exigente.”
“Este ano tens de te esforçar mais.”
“Já sabes que não podes deixar tudo para a última.”
E talvez, sem darmos por isso, o novo ano letivo começa carregado com o peso do anterior.
As notas que podiam ter sido melhores, a matéria que ficou por consolidar, a desorganização que nos desesperou, os trabalhos terminados na última e as noites em que o estudo acabou em discussão.
Setembro aparece, ainda antes de começar, como uma espécie de página em branco onde projetamos tudo aquilo que gostaríamos que fosse diferente.
Também nós, pais, fazemos isso. Prometemos que este ano vamos acompanhar mais, que nos vamos organizar melhor, que vamos estar mais atentos e que vamos conseguir conciliar tudo.
Prometemos que desta vez vai ser diferente.
E é bonito querer fazer melhor!
O problema começa quando transformamos esse desejo numa pressão para que tudo corra bem. Quando cada setembro tem de ser o setembro em que finalmente tudo encaixa.
Quando esperamos que os nossos filhos regressem das férias automaticamente mais responsáveis, mais organizados, mais autónomos e mais motivados.
Como se também eles tivessem passado o verão a preparar uma nova versão deles mesmos. Mas não é assim que crescemos.
Não acordamos num novo ano transformados. Continuamos a ser nós, com aquilo que já conseguimos e aquilo que ainda estamos a aprender, com as nossas forças e as nossas fragilidades.
E é importante lembrarmo-nos disso antes de lhes pedirmos que comecem o novo ano. Eles não precisam de começar setembro a provar que vão ser melhores. Precisam de começar sabendo que terão novas oportunidades para aprender, para tentar, para falhar e para crescer. E nós também.
É, talvez por isto, que sempre senti setembro como um mês de recomeços. Há quem faça balanços em dezembro, quem espere pela passagem do ano para escrever objetivos, fazer listas e decidir o que mudar.
O meu ano começa em setembro.
Começa com uma sensação estranha de que há uma página a virar. Começa com alguma nostalgia pelo que está a acabar e com algum nervosismo pelo que está a começar. Mas começa também com aquela expectativa boa de quem não sabe tudo o que vai acontecer.
Novas salas, novos professores, novas aprendizagens, novos desafios, novas oportunidades.
E é esta a verdadeira beleza dos recomeços: não começamos do zero. Começamos com tudo aquilo que já vivemos, com tudo o que já aprendemos, com o que queremos repetir e o que queremos deixar para trás. Com as férias que nos ensinaram a abrandar e com o tempo que conseguimos passar juntos.
Agora, pouco a pouco, teremos de encontrar novamente o nosso ritmo, sem exigir que tudo esteja perfeito desde o primeiro dia. Sem esperar que as crianças e jovens encontrem imediatamente o ritmo. Sem transformar um início mais difícil numa previsão do resto do ano e sem transformar um resultado menos bom numa sentença.
Tentemos dar tempo. A eles, a nós e à família. Tempo para nos reorganizarmos e nos adaptarmos. Tempo para percebermos o que este ano nos pede. Tempo para experimentar, para errar e para começar outra vez.
Setembro não nos pede para sermos uma melhor versão de nós próprios. Talvez nos peça apenas para estarmos disponíveis para crescer. Para começar de novo, sem começar do zero.
Esta é a sua magia: lembrar-nos que há algo novo à nossa espera.
Podemos entrar nele com listas, horários e expectativas. Ou podemos entrar com alguma leveza também e sem a obrigação de fazer deste o melhor ano de sempre. Apenas com a vontade de ser um ano vivido com presença e com espaço para crescer, espaço para falhar, espaço para sermos nós.
Setembro não é uma cobrança.
É uma oportunidade de recomeçar, ao nosso ritmo.
Juntos.
Por Sandra Pinheiro
sandrapaisfonseca@gmail.com
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