Crónicas e opinião
Belive 2026: o futuro passou por ali
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O Belive nasceu em 2014, ainda no decorrer do primeiro ano do regime Sérgio Humberto. Reza a lenda que terá sido idealizado por um assessor de imprensa experimentado e imediatamente acolhido pelos responsáveis políticos, que viram naquela ideia o potencial que ela veio a revelar.
Seja qual for a sua origem, o Belive rapidamente se afirmou como um dos grandes eventos locais, capaz de rivalizar, em termos de audiência, com eventos como as Festas em Honra de Nossa Senhora das Dores, a Feira Anual ou a Expotrofa. Num concelho onde eventos desta natureza eram uma miragem, o Belive veio preencher um espaço vazio ou ocupado pelos eventos mal-amanhados que o antecederam.
De ano para ano, o sucesso do Belive tornou-se incontestável. E, à medida que os anos passavam, a procura aumentou, arrastou cada vez mais trofenses e atraiu visitantes de outros concelhos, que viram nele uma oportunidade de ver os seus artistas de eleição de forma gratuita, pese embora nada seja gratuito. O custo do Belive, que cresceu de ano para ano, não é pago pela árvore das patacas. É subsidiado pelos impostos pagos pelos trofenses. Que, convém não esquecer, são dos mais elevados a nível nacional.
O evento começou por se realizar no espaço contíguo à estação ferroviária, tendo-se mudado, nos últimos anos, para o espaço do mercado semanal. Este ano, contudo, o Belive conheceu uma nova casa, no Centro Equestre de Bougado. Sendo este um espaço que passa praticamente todo o ano às moscas, urge dar-lhe uso. E a mudança foi, a meu ver, muito bem-sucedida.
Depois da desorganização do primeiro local e da caixa de fósforos em que nos tinham enfiado nos últimos anos, a configuração do recinto do Belive aproximou-se, finalmente, da de um festival de Verão. Eu diria até que com melhores condições que alguns festivais de Verão. Quem este ano esteve no North Music Festival sabe do que falo.
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Dizer que a configuração do Belive melhorou substancialmente é demasiado vago. E porque algumas melhorias são dignas de registo, quero partilhar com o caro leitor aquelas que me chamaram mais a atenção.
Comecemos pela criação de uma zona elevada para pessoas com mobilidade reduzida poderem assistir aos concertos. Foi a primeira coisa que me chamou a atenção quando entrei no recinto, no final da tarde de Sexta. Muito idêntica às que tenho visto em festivais de primeira linha, como o NOS Alive, esta zona revela não apenas sensibilidade, mas um conhecimento mais objectivo deste tipo de eventos. Ter alguém que conhece estes terrenos a liderar a organização, como é o caso do nosso vice, João Marques da Silva, faz toda a diferença. Toda.
Nota igualmente positiva para o regresso em força de muitos projectos locais ou com ADN trofense. Não só tivemos trofenses a tocar no palco principal todos os dias (Crow Machine, Aim J e Arcos), como ainda tivemos os finais de tarde animados por músicos e escolas de dança da nossa terra. Tive a oportunidade de assistir na íntegra a um desses finais de tarde, na Sexta-feira, e foi bonito de ver a sinergia entre o colectivo hiphop que juntou DJ Upgrade com os MCs Desa, Purple, Pena e o próprio Aim J, que actuaria mais tarde no palco principal, a as incríveis b-girls da Alva. Aplaudi de pé. Várias vezes.
Por falar no palco secundário, que estava junto à zona da alimentação, acrescente-se que usar aquele espaço para ocupar os tempos mortos entre concertos foi uma aposta ganha. E, uma vez mais, com a prata da casa: DJ André Silva e Tiago. Tal como nos festivais, silêncio só quando fecha o palco principal. Até lá, a música não pode parar.
Já falei no recinto e quero voltar a ele. Mais amplo, melhor organizado, zonas perfeitamente delimitadas, área de restauração bem localizada, zona de divertimentos também. O simples facto de se ter libertado o espaço usado nos últimos anos criou uma enorme zona de estacionamento, que não só aumentou a comodidade para quem ali foi, como permitiu que as ruas em torno do recinto respirassem melhor. Existem algumas melhorias a fazer, a meu ver, mas já lá iremos.
Finalmente, e porque esta é, tal como a questão dos músicos trofenses, uma questão que me toca a nível pessoal, por, durante anos, a ter defendido no Conselho Municipal de Juventude, foi com enorme satisfação que vi criado um sistema de transportes de e para outros pontos do concelho. Ainda sou do tempo em que, tendo proposto pela primeira vez esta ideia no CMJ, em representação do Clube Slotcar da Trofa, me foi dito por responsáveis políticos que se tratava de algo inviável, demasiado dispendioso e inútil. Hoje percebo que o problema não era a proposta, mas quem a propôs. O mesmo se aplica a ter o máximo de artistas locais no alinhamento do Belive. E eu também sou do tempo em que um dirigente do PSD defendia que isso era “ser do contra” e que não fazia sequer sentido pagar-lhes, porque já deviam ficar muito felizes por tocar no palco principal. A história deu razão ao genial apparatchik.
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Este ponto será mais curto que o anterior. Mas sim, existem pontos a melhorar. E está tudo bem. Festivais de referência como Paredes de Coura, Nos Alive ou Primavera Sounds não são iguais ao que eram há 10 anos. Vão melhorando ao longo do tempo. Assim foi e assim terá de ser com o nosso Belive.
Permita-me, caro leitor, o seguinte exercício: se fosse eu a tomar as decisões, o que mudaria?
Aqui vai: em primeiro lugar, ampliaria a zona das casas de banho. Separava-as por sexo, colocava urinóis na zona dos homens, para a escoar mais rapidamente, e aumentava o número de contentores-casa-de-banho para as mulheres. O tempo de espera, naquelas casas-de-banho, era longo demais.
Em segundo lugar, ampliaria a zona da alimentação. Julgo que estava bem conseguida, mas precisa de mais espaço, mais mesas e mais bancos. Mas não a trocaria de lugar. Está muito bem onde está.
A zona dos bares não era péssima, mas o bar ao fundo do recinto perde em relação ao primeiro, que apanha quem sai do recinto. O que eu faria era colocar dois bares na zona do palco principal, um de cada lado, para que quem está a ver os concertos não tenha que ir até à outra ponta do recinto, e colocava os restantes em posição frontal para o palco, de forma a que todos estivessem em pé de igualdade.
Talvez fosse boa ideia colocar o mesmo tipo de tapete que encontrávamos à frente dos restaurantes em toda a zona que incluía os bares, WCs, zona de divertimentos, palco secundário e zona de restauração. Aquela gravilha não faz muito sentido. Mais vale ter a terra batida que estava na zona do palco principal. Levanta poeira, mas ninguém se aleija.
O palco secundário é uma excelente ideia, mas talvez pudesse estar mais próximo do principal do que da zona da alimentação. Muitas das pessoas com quem falei durante o evento queixavam-se do mesmo: quem estava a comer não conseguia ter uma conversa. Não digo que seja necessário silêncio absoluto, não é o lugar para isso, mas é possível aumentar o espaçamento.
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Finalmente, o cartaz. Não me quero pronunciar sobre ele em termos qualitativos, porque gostos não se discutem e porque o público-alvo não são quarentões como eu. Mas existe margem para maior diversidade. Para uma aposta noutros estilos musicais. Para, eventualmente, trazer artistas internacionais, se é que o objectivo é, de facto, transformar aquilo que ainda é uma semana da juventude num festival de Verão. Dir-me-ão que o orçamento não chega, mas isso não é bem assim. Existem eventos menores em terras mais pequenas que a Trofa que o conseguiram fazer. E existem muitas formas de contornar preços, sobretudo quando quem está a cargo da programação sabe o que está a fazer e sabe que bandas estão em tour e que datas podem ser obtidas por preços inferiores. Isto sem nunca abdicar da prata da casa. Ela é a da Trofa é a Trofa é dela.
Está de parabéns a organização, que deste teclado cumprimento, e espero, em 2027, estar aqui a elogiá-la de novo.
O Belive tem tudo para crescer e melhorar. Basta querer. O futuro passou por ali e pode passar ainda mais.
Artigo de opinião de João Mendes


