Crónicas e opinião
Gerir bem é importante. Mas pode não ser suficiente
A prestação de contas da Câmara Municipal da Trofa relativa a 2025 revela uma realidade que merece ser reconhecida sem reservas: o Município apresenta contas equilibradas, uma dívida controlada e indicadores financeiros robustos. Num contexto em que tantas entidades públicas enfrentam dificuldades permanentes, este é um resultado que deve ser valorizado.
A boa gestão financeira não é um detalhe técnico. É uma condição essencial para qualquer projeto político sério. Sem contas equilibradas não há investimento, não há capacidade de resposta e não há liberdade para decidir o futuro.
Por isso, seria injusto ignorar aquilo que foi alcançado.
Mas é precisamente porque a situação financeira é sólida que devemos colocar uma questão mais ambiciosa: o que estamos a fazer com essa vantagem?
Uma autarquia não existe apenas para gerir recursos. Existe para criar condições para o desenvolvimento do território e melhorar a vida das pessoas. E quando as contas estão equilibradas, a discussão deve deixar de ser sobre a capacidade de gerir e passar a ser sobre a capacidade de transformar.
A Trofa tem hoje condições que muitos municípios gostariam de ter. A dívida tem vindo a diminuir, existe capacidade de investimento e os principais indicadores financeiros demonstram estabilidade. A questão que se coloca é simples: estamos a utilizar essa estabilidade para preparar o futuro do concelho?
Ao longo dos últimos anos foram realizados investimentos importantes, muitos deles necessários e há muito aguardados. Isso é positivo. Mas os desafios das próximas décadas exigem uma reflexão mais profunda.
Como vamos atrair mais empresas para o concelho? Como vamos fixar jovens qualificados?
Como vamos aumentar os salários médios?
Como vamos reforçar a ligação entre as escolas, a formação profissional e as necessidades das empresas?
Como vamos tornar a Trofa mais competitiva numa região onde a concorrência entre territórios é cada vez maior?
Estas são as perguntas que devem ocupar o centro do debate.
Há também questões que merecem discussão. A despesa corrente registou um crescimento expressivo e o número de trabalhadores municipais continua a aumentar. Não afirmo que isso seja necessariamente negativo. Em muitos casos poderá até ser justificado pelo alargamento das competências municipais e pelas novas responsabilidades assumidas pela autarquia. Mas qualquer aumento permanente da despesa deve ser acompanhado pela mesma exigência que aplicamos ao investimento: que benefícios concretos traz para os munícipes? A sustentabilidade financeira de hoje não deve dispensar o escrutínio das opções que condicionam o amanhã.
Por vezes, a política local cai numa espécie de acrasia coletiva: sabemos o que deve ser feito, mas acabamos por nos concentrar no que é mais imediato, mais visível e mais eleitoralmente rentável. É mais fácil discutir uma obra do que uma estratégia. É mais fácil inaugurar um equipamento do que criar condições para atrair investimento. É mais fácil administrar o presente do que preparar o futuro.
Aliás, a própria prestação de contas mostra que uma parte significativa dos investimentos estruturantes continua dependente de financiamento europeu. Não há qualquer problema em aproveitar esses recursos. Pelo contrário. O problema seria não os aproveitar.
Mas uma estratégia de desenvolvimento não pode assentar apenas na capacidade de captar fundos. Deve assentar, acima de tudo, na capacidade de gerar riqueza, atrair investimento privado e criar oportunidades para quem vive e trabalha no concelho.
Uma visão liberal do poder local começa precisamente aqui: reconhecer o mérito da boa gestão, mas recusar a ideia de que gerir é suficiente.
Porque gerir bem é administrar o presente. Liderar é preparar o futuro.
A Trofa está hoje numa posição financeira confortável. E isso é uma boa notícia para todos. A verdadeira questão é saber se teremos a ambição de transformar essa vantagem numa oportunidade para construir um concelho mais competitivo, mais dinâmico e mais atrativo para as próximas gerações.
Daqui a vinte anos, os relatórios financeiros de 2025 serão apenas arquivos. O que permanecerá será o impacto das decisões tomadas hoje.
E é por isso que, quando as contas estão certas, o debate não deve terminar. Deve começar.
Artigo de opinião de Diamantino Costa


