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Crónicas e opinião

Escrita com Norte | Vicente, o miador

José Calheiros

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Apareceu-me no local de trabalho, quando me dirigia para o contentor onde estava instalado, enquanto decorriam obras no edifício administrativo. Sem marcação e sem palavras, apresentou-se com um encosto e um miar. Não lhe disse o meu nome nem sabia como lhe chamar. Não achei urgente!

Mas no dia seguinte o gato estava lá, à porta do contentor. Instalou-se, pôs-se à vontade.

Tanto se deitava na minha secretária, por vezes clicando no teclado do computador coisas que não queria escrever, como na cadeira, que coloquei ao lado da minha. Era um trabalhador assíduo, sempre que chegava ao trabalho ele já lá estava, mas como não recebia ordenado, naturalmente levei-o para casa.

De colega de trabalho passou a membro da família e entrou na minha casa como entram os seres que não pedem licença à vida, com a certeza tranquila de que já cá pertencia.

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Diz quem percebe de gatos que os siameses têm personalidade forte, quase humana. O Vicente confirmou a teoria e quase me convenceu que era capaz de falar. Nunca foi apenas um gato, foi uma espécie de proprietário alternativo da casa com opiniões muito firmes sobre o comportamento dos humanos, colocando-me em último na cadeia de comando caseira.

Quando chegou, jovem adulto e desconfiado, observou-nos como quem avalia inquilinos, temendo eu ser despejado. A minha mulher conquistou-o com um sorriso.

– Ele vai gostar de nós, vais ver.
(eu já sabia)

O Vicente olhou para ela, sentiu-se na casa onde devia estar, e foi dormir para cima da nossa almofada.

(Almofada essa que deixou, a partir desse dia, de ser nossa.)

O veterinário explicou que os siameses são inteligentes e o Vicente levou isso demasiado a sério. Aprendeu rapidamente a abrir portas com uma combinação de insistência e lógica felina e descobriu os lugares sagrados onde se guarda comida.

Com o tempo, tornou-se parte da nossa rotina. Ou melhor, nós tornámo-nos parte da rotina dele. Às 7:17 da manhã, religiosamente, o Vicente lembrava-nos que o conceito de “fim-de-semana” era uma invenção humana sem validade biológica.

– Ele está a miar outra vez…

– Não está a miar. Está a comunicar.

(Era sempre a defesa dele. E nunca estava errado.)

Mas agora o Vicente está doente.

E há qualquer coisa de muito triste em ver um ser que sempre pareceu tão inteiro começar a perder pequenos pedaços de mundo. Primeiro foi o salto que já não sai tão alto. Depois o olhar que demora mais um segundo a focar-nos. Agora o silêncio entre os passos.

Hoje, enquanto ele dormia ao sol, reparei que já não ocupa o espaço como antes. Antes, o Vicente ocupava a casa, tudo era dele, mesmo o que não sabia que existia. Agora ocupa o espaço com cuidado, como se pedisse desculpa por ainda estar aqui.

– Ele já não melhora. – Disse o veterinário.

Tinha-me convencido que o Vicente tinha 7×7 vidas como um gato super-herói, pronto para reagir a qualquer alteração no universo.

Há uma coisa estranha quando se ama um gato assim: não fui eu que o escolhi, mas quando começa a faltar, sentimos que estamos a perder um pedaço de casa que sempre foi nosso sem nunca ter sido.

O Vicente olha para mim agora. Não com a arrogância habitual, mas com uma espécie de paciência antiga. Como se dissesse:

“Não te preocupes. Eu já sabia que isto ia acontecer.”

E talvez soubesse, eu é que não estava preparado.

Os gatos aprendem os nossos hábitos para depois partirem com elegância, sem drama, sem explicações.

Se for esse o caso, o Vicente continua fiel ao seu carácter.

Porque até a despedida, ele está a fazer à maneira dele.

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