Trofa
Liga de Utentes define literacia em saúde e correta gestão de resíduos cortoperfurantes como prioridades
Num contexto em que a participação dos cidadãos no sistema de saúde ganha crescente relevância, a Liga de Utentes de Saúde da Trofa entra num novo ciclo de liderança, mantendo o foco na proximidade à população e na intervenção cívica. Márcia Azevedo foi eleita presidente para o biénio 2026/2028.
A nova direção integra Pedro Castro e Cátia Veloso — a única elemento que transita da equipa anterior — sucedendo a um primeiro mandato liderado por Manuel Silva, que assume agora a presidência da assembleia-geral.
Com um trabalho inicial já desenvolvido, a nova liderança aponta à continuidade das linhas estratégicas, mas também ao reforço da intervenção no terreno, à promoção da literacia em saúde e à consolidação do papel da associação como elo entre utentes, profissionais e instituições.
Entre as áreas de atuação destacam-se ações de sensibilização dirigidas à comunidade, nomeadamente no que diz respeito à correta gestão de resíduos cortoperfurantes, associados a terapêuticas injetáveis, uma preocupação crescente identificada junto das unidades de saúde locais. Paralelamente, a associação pretende apostar em abordagens inovadoras de promoção do bem-estar, incluindo iniciativas que recorrem à música como instrumento de intervenção comunitária.
Numa altura em que se identificam desafios como a elevada prevalência de doenças crónicas e a necessidade de melhorar o acesso e a comunicação com os serviços de saúde, Márcia Azevedo traça prioridades que passam por uma atuação mais próxima, informada e articulada com a realidade local.
Que prioridades definiu para este mandato?
Ao assumir a presidência da LUST numa fase de consolidação, defini como prioridades a continuidade do trabalho desenvolvido pela direção anterior, liderada pelo Manuel Silva, assegurando estabilidade institucional e coerência estratégica. Paralelamente, pretende-se introduzir novas valências, com particular enfoque na promoção da literacia em saúde, no reforço da proximidade aos utentes e no aumento da visibilidade da Associação. É igualmente prioritário fortalecer a articulação com os profissionais de saúde, promovendo uma relação mais integrada entre utentes e serviços, assente numa lógica de corresponsabilização, que valorize não apenas os direitos, mas também os deveres dos cidadãos no sistema de saúde.
Que papel quer que a LUST tenha no concelho nos próximos anos?
A LUST pretende afirmar-se como uma estrutura de referência no concelho da Trofa, não só na defesa dos direitos dos utentes, mas também como agente ativo na promoção da saúde pública. O objetivo é consolidar o seu papel enquanto interface entre utentes, profissionais e instituições, contribuindo para um sistema mais eficiente, equitativo e centrado nas necessidades reais da população.
O plano para 2026 aposta na continuidade de iniciativas, mas também no reforço da intervenção junto da comunidade. Onde estará a principal diferença em relação aos anos anteriores?
A principal diferença residirá no reforço da intervenção de proximidade e na qualificação da comunicação com a comunidade. Para além da continuidade das iniciativas já implementadas, será intensificada a produção e disseminação de conteúdos informativos, nomeadamente através de uma parceria com o O Notícias da Trofa e o Jornal do Ave, com a publicação de uma crónica mensal dedicada a temas relevantes na área da saúde. Esta abordagem permitirá uma comunicação mais sistemática, acessível e baseada em evidência científica.
Um dos objetivos passa por aproximar a associação dos utentes. Como se concretiza essa aproximação no terreno?
A aproximação aos utentes concretiza-se através de uma presença mais ativa no território, com participação em eventos comunitários, realização de rastreios, ações de educação para a saúde e iniciativas de sensibilização. Está igualmente prevista a dinamização de estratégias que facilitem o contacto direto com os cidadãos e incentivem a sua participação ativa na Associação, nomeadamente através do aumento do número de associados. Esta proximidade será também reforçada pela melhoria dos canais de comunicação e pela adaptação da linguagem utilizada às necessidades da população.
A literacia em saúde surge como eixo central. Que tipo de impacto espera alcançar junto da população?
A promoção da literacia em saúde visa capacitar os cidadãos para uma melhor compreensão das suas condições de saúde, promovendo decisões mais informadas e comportamentos preventivos. Pretende-se atuar sobre áreas de maior prevalência, como a obesidade, a diabetes e as doenças cardiovasculares.
Neste âmbito, assume particular relevância a abordagem à gestão de resíduos cortoperfurantes, especialmente em utentes sob terapêutica injetável. Após articulação com unidades de saúde locais, foi identificada uma elevada incidência de obesidade no concelho da Trofa, sendo que alguns dos tratamentos atualmente utilizados implicam a administração de fármacos injetáveis de utilização regular, frequentemente com dispositivos de dimensões consideráveis. Torna-se, por isso, fundamental sensibilizar os utentes para os procedimentos adequados de acondicionamento e eliminação destes resíduos, atendendo aos riscos biológicos e aos custos associados a uma gestão inadequada.
Tem havido diálogo com as unidades de saúde locais. Que resultados já foram alcançados ou estão em perspetiva?
O diálogo institucional com as unidades de saúde locais tem sido contínuo e construtivo. Em reuniões com equipas das Unidades de Saúde Familiar, foi possível identificar áreas prioritárias de intervenção, nomeadamente a elevada prevalência de obesidade na população. Este tipo de articulação tem permitido alinhar estratégias e reforçar a pertinência das ações desenvolvidas pela LUST, nomeadamente ao nível da educação para a saúde e da prevenção da doença.
A LUST pretende “conhecer a realidade” das doenças com maior prevalência. O que já se sabe e o que falta apurar?
Existe já evidência de que patologias como as doenças cardiovasculares, a diabetes e a obesidade apresentam elevada prevalência na área de influência da LUST. No entanto, é essencial aprofundar a análise com base em dados epidemiológicos locais mais detalhados, que permitam caracterizar melhor os perfis da população e orientar intervenções mais eficazes. A recolha e interpretação destes dados serão determinantes para a definição de estratégias de prevenção e promoção da saúde mais direcionadas.
A LUST quer intensificar o diálogo com entidades da área da saúde. Que parceiros são prioritários?
Os parceiros prioritários incluem, desde logo, a Unidade Local de Saúde e, através dela, as Unidades de Saúde Familiar, as Unidades de Cuidados na Comunidade, as autoridades de saúde e outras entidades com intervenção direta na área da saúde pública. Paralelamente, será valorizada a criação de parcerias com instituições locais de natureza educativa, social e cultural, reconhecendo o papel dos determinantes sociais na saúde. Neste contexto, destaca-se também a intenção de desenvolver projetos inovadores, como a utilização da música como instrumento de promoção do bem-estar e da saúde mental, em articulação com estruturas da comunidade.
Que tipo de soluções concretas a associação pretende apresentar para melhorar o acesso aos cuidados de saúde?
A LUST pretende contribuir com propostas baseadas na identificação concreta das necessidades dos utentes, nomeadamente ao nível das dificuldades de acesso, da comunicação com os serviços e da literacia em saúde. Entre as soluções a desenvolver destacam-se o reforço da informação acessível e baseada em evidência, a promoção de boas práticas de utilização dos serviços e a sensibilização para questões específicas, como a correta gestão de resíduos associados a terapêuticas domiciliárias. Pretende-se, igualmente, fomentar uma maior articulação entre utentes e profissionais, contribuindo para um sistema mais eficiente, seguro e centrado no cidadão.


