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Folha Liberal: Estado social ao contrário

“Em vésperas de Natal ficamos a saber que a Dra. Alexandra Reis, que trabalhava no conselho de administração da TAP, se demitiu, tendo recebido uma indemnização a rondar os 500.000,00€. É bastante interessante ver as reações a este caso, e à medida que o tempo passa, a trama torna-se ainda mais interessante pelas contradições com que nos vamos deparando”

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Em vésperas de Natal ficamos a saber que a Dra. Alexandra Reis, que trabalhava no conselho de administração da TAP, se demitiu, tendo recebido uma indemnização a rondar os 500.000,00€. É bastante interessante ver as reações a este caso, e à medida que o tempo passa, a trama torna-se ainda mais interessante pelas contradições com que nos vamos deparando

1) Se ela se demitiu não havia direito a indemnização.
2) Se ela recebeu a indemnização é porque foi demitida.
3) Se foi demitida, porque é que a TAP disse, em fevereiro, o contrário?
4) Afinal a TAP está a mentir agora ou mentiu em fevereiro?
5) Se foi demitida porque é que havia de abdicar da indemnização?
6) Se foi demitida é porque não servia para o lugar.
7) Se não servia para o lugar, será que servia para presidente da NAV e serve agora para secretária de Estado do Tesouro?
Na verdade, todas estas questões têm uma importância relativa nesta questão concreta. O que nos deve preocupar, é o que está por trás disto. Este é um caso isolado, ou é prática normal e corrente? O que nos deve preocupar são as “portas giratórias”, já não apenas dos órgãos do estado e as empresas que tutelaram, mas dentro do próprio estado e das suas empresas.
É que um governo que é capaz de injetar mais de 3 mil milhões de Euros numa empresa, que é capaz de cortar em média 25% dos salários dos trabalhadores dessa empresa, é também capaz de renomear um membro do conselho de administração e passados poucos meses lhe pagar uma indemnização milionária. E é capaz de, depois de lhe pagar uma fortuna para se ver livre dela, a contratar para ser presidente de outra empresa pública e, passado pouco tempo a chamar para o governo do país como secretária de estado do tesouro.
Das duas uma: ou o tesouro ou a TAP está em muito más mãos, porque, ou a secretária de estado é mesmo muito má e se justifica pagar semelhante indemnização para a despedir, ou é afinal uma excelente profissional e quem a despediu da TAP não percebe muito disto…
A semana passada ficamos ainda a saber, por um estudo do Banco de Portugal, que avalia o impacto das medidas extraordinárias contra a inflação, que os 20% da população mais pobre recebeu apenas 18,5% das ajudas e que os 20% da população mais rica recebeu 26.6% do valor das ajudas. (Neste estudo ainda não entra a ajuda dos 240€ às famílias mais pobres).
Este resultado é chocante (os mais ricos recebem mais ajudas que os mais pobres), mas não é, nem novo, nem surpreendente.
Já em 2016 a OCDE tinha elaborado um estudo que chegava à conclusão que em Portugal os 20% da população mais pobre recebiam apenas 11% das transferências monetárias efetuadas pelo estado português, enquanto os 20% da população mais rica recebiam mais de 40%.
Ainda há dias, um outro estudo da OCDE, encomendado pelo governo português, refere que é um erro ter reduzido as propinas para todos, porque isso é financiar os mais ricos, que são na verdade, a maioria dos que vão para as universidades.
Isto significa que os nossos impostos não estão a ser utilizados para redistribuir pelos mais pobres, pelos mais necessitados, mas, pelo contrário, estão a ser redistribuídos pelos mais ricos, por aqueles que verdadeiramente não precisam, por aqueles que podem pagar.
Quando disserem ao caro leitor, que não é possível reduzir as taxas de imposto, lembre-se que não é por causa de apoiarmos os mais pobres, ou os trabalhadores, como alguns nos querem fazer crer, é por usarmos mal esse dinheiro a financiar os mais ricos.
Afinal, parece que a redução de impostos à classe média, não “é um ataque ao estado social”.
Vivemos num estado social ao contrário!

Foto: DR

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