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Edição 770

São Pantaleão, padroeiro do Porto durante cinco séculos

Existe, na freguesia do Muro, uma capela dedicada ao mártir S. Pantaleão.

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Tendo estudado Medicina, Pantaleão tornou-se médico pessoal de César Galério. Converteu-se ao Cristianismo,vindo a ser acusado pelo imperador por ter recebido o baptismo. Preso e torturado, foi martirizado por decapitação, por se recusar a abjurar de sua fé em Nicomédia, na Ásia Menor, no ano de 303. Tinha então menos de 23 anos de idade.
Conta a tradição que o imperador queria poupá-lo e tentou convencê-lo a retratar-se como ateu. De nada adiantou. Pantaleão, no entanto, confessou abertamente a sua fé cristã. Inicialmente condenado no fogo, as chamas foram extintas. De seguida, mergulhado em chumbo derretido, mas o chumbo foi milagrosamente resfriado, solidificando rapidamente. Depois foi atirado ao mar com uma pedra amarrada ao pescoço, mas a pedra começou a flutuar. Condenado às feras, em vez de o desfazer aos pedaços, as feras fizeram-lhe festas. Foi amarrado a uma roda, mas as cordas romperam-se e a roda partiu-se. Tentaram decapitá-lo, a espada curvava e Pantaleão rezou a Deus para os perdoar. Finalmente, Pantaleão deu o seu consentimento e os carrascos conseguiram o seu intento. Pantaleão aparece (nas imagens) amarrado a um tronco de árvore.
Os restos mortais de Pantaleão de Nicomédia foram levados para Constantinopla, onde foi construído um templo em sua honra. Alegadas curas milagrosas de várias doenças deram início a um culto das suas relíquias. A ocupação de Constantinopla pelos turcos, em 1453, levou à dispersão das relíquias do santo. Hoje, várias cidades reclamam de ter as relíquias do mártir. Colónia, na Alemanha, Troyes, em França, Luca e Veneza, em Itália, entre outras.
É referido, ainda por vários cronistas, que “o seu sangue foi conservado durante séculos, na Itália, onde, no dia da sua festa (27 de Julho) o mesmo se torna líquido”.

Verdade ou lenda?

Relíquias de São Pantaleão chegaram ao Porto há cinco séculos e por lá ficaram
Conta-se que os restos mortais de São Pantaleão chegaram a Miragaia (Porto) a 8 de agosto de 1453, e quem as trouxe foram cristãos arménios, sendo depositadas na igreja de São Pedro de Miragaia. A peste invadiu a cidade do Porto e os moradores de Miragaia apelaram a São Pantaleão para que os acudisse. A peste, na verdade, não afectou esta zona e este facto foi visto como um milagre por intercessão de São Pantaleão.
A 12 de dezembro de 1499, as relíquias foram trasladadas para a Sé (Catedral) por vontade de D. Diogo de Sousa, o prelado da Cidade Invicta que também promoveu a alteração do padroeiro da cidade, de São Vicente, para São Pantaleão, com a aprovação do papa Alexandre VI. Segundo a história, no dia da entronização do santo (12 de dezembro de 1499), D. Diogo de Sousa mandou organizar uma grande procissão, para comemorar o evento. Em Miragaia ficou apenas um fragmento de um osso até aos dias de hoje num relicário de prata em forma de braço.
D. João II mandou fazer uma urna para guardar os restos das ossadas, mas esta só foi entregue à cidade em 1504, por D. Manuel II. A urna foi restaurada em 1631 e roubada a 16 de novembro de 1841, constando que foi para Inglaterra ficando as ossadas guardadas numa urna de madeira. Actualmente, segundo consta, as ossadas encontram-se no altar-mor da Sé. A cabeça-relicário foi enviada para Lisboa, onde a Rainha D. Amélia a desenhou. Esta foi enviada para o Palácio das Necessidades e, posteriormente, para o Museu de Arte Antiga. Em 1941, regressou ao Porto para o Museu de Soares dos Reis. Em 1981, o mártir São Pantaleão foi substituído como padroeiro por Nossa Senhora da Vandoma. O dia litúrgico de São Pantaleão era celebrado a 27 de julho desde 1499; na altura “com grande pompa e circunstância”, através de grande procissão pelas ruas principais da cidade.

Capela dedicada a S. Pantaleão no Muro

Existe, na freguesia do Muro, uma capela dedicada ao mártir S. Pantaleão. É desconhecida a data da construção deste templo. Há cronistas que assinalam o século XVII como sendo a data mais previsível (1642?) da sua erecção. Na década de 50 do século passado, foi alvo de uma grande ampliação. Anualmente, os murenses realizam uma grande romaria em honra deste santo mártir de Nicomédia, no último domingo de julho.

ANTÓNIO COSTA

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