Trofa
Meio século a servir a Trofa: Bombeiros ganham10 viaturas e prestam homenagem aos fundadores (com vídeos)
Num domingo de bandeiras, sirenes e gratidão, a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários da Trofa assinalou 50 anos de história com um investimento superior a um milhão de euros em novos meios, a promoção de bombeiros e uma homenagem a quem, há cinco décadas, não se resignou à demora do socorro.
Há cinco décadas, um acidente junto à Confeitaria Miranda e a demora do socorro levaram um grupo de amigos, reunidos num café, a decidir que a Trofa merecia melhor. No domingo, 4 de outubro, a história que se escreveu a partir dessa decisão foi celebrada diante de um quartel cheio de fardas, famílias e viaturas novas.
A cerimónia, presidida por Rui Rocha, secretário de Estado da Proteção Civil, arrancou de manhã com o hastear das bandeiras e uma homenagem aos bombeiros, dirigentes e associados falecidos, num protocolo habitual, que incluiu o juramento de bandeira e ingresso no quadro ativo de novos bombeiros e a bênção de uma dezena de veículos. Foi um momento que o secretário de Estado testemunhou de forma “inédita”, pelo número e investimento representado.
Três ambulâncias de socorro pré-hospitalar, duas de transporte de doentes não urgentes, uma plataforma elevatória do tipo autoescada, uma viatura de comando, uma viatura ligeira de combate a incêndios, um veículo florestal de combate a incêndios e um veículo de socorro e assistência especial resultam de investimento próprio da Associação Humanitária, mas também da generosidade da comunidade empresarial, como a Saner, a Metais Jaime Dias, a Trofa Saúde, a Proef/Eurico Ferreira e a Brasmar/Metalogalva, a que se juntou a Câmara Municipal da Trofa.
O presidente da direção, Luís Elias, não escondeu a satisfação com a resposta ao apelo que lançou no ano passado para que o cinquentenário fosse vivido com dignidade. “Confirma aquilo que era a nossa expectativa: a Trofa e os trofenses ainda sabem reconhecer quem merece esse esforço”, afirmou, lembrando que, a par destas ofertas, chegaram outros donativos “de valor menos significativo, mas tão importantes quanto estes”, que também permitiram, por exemplo, adquirir equipamentos de proteção individual.
A Câmara Municipal contribuiu com três viaturas, num investimento superior a 750 mil euros. O presidente do município, Sérgio Araújo, sublinhou que o apoio autárquico vai além dos veículos: há um protocolo anual com os bombeiros, que “voltará a aumentar” em 2027, e a Trofa é “um dos poucos concelhos” do Norte e da Área Metropolitana do Porto com três equipas de intervenção permanente para 40 mil habitantes.
O comandante João Pedro Goulart explicou que a renovação da frota automóvel responde às necessidades de hoje, com a substituição de ambulâncias de socorro, de transporte não urgente e de viaturas de combate a incêndios.
Do infante ao bombeiro de terceira
Mas o reforço não foi só de máquinas: os estagiários concluíram o curso de instrução inicial e ingressaram no quadro, aumentando a capacidade de resposta em efetivos humanos. Houve ainda lugar para um gesto simbólico. Foi homenageado o bombeiro de terceira José Miguel Moreira, que percorreu todo o caminho desde a escola de Infantes e Cadetes até ao quadro ativo, e que o comandante apontou como “testemunho” de que a escola dá frutos. Foram também distinguidos vários bombeiros pelos anos de serviço, onde se incluía Eduardo Cruz, com mais de 45 anos de ligação à corporação.
Sobre o amanhã do voluntariado, João Pedro Goulart recusou fazer “futurologia”, mas defendeu que é preciso “construir uma base de sustentação”, que garanta “condições sociais, económicas e financeiras” aos operacionais.
“A sociedade, o Governo, o Estado, têm a obrigação de proporcionar condições de retaguarda para que haja tempo disponível para quem queira e possa dedicar-se a esta causa”, postulou.
Os onze que começaram tudo
Uma das grandes homenagens foi para os fundadores. Dos 11 homens que deram corpo à Associação, seis estiveram presentes. João Gomes recordou com simplicidade os primeiros passos: a dificuldade em ultrapassar obstáculos, os peditórios por toda a freguesia, a ambulância que ainda hoje se guarda no museu, a garagem e depois o barracão. “Arrancámos com uma ambulância e com um jipe”, contou. Hoje, perante dez viaturas novas, resumiu: “Isto é uma coisa que nem nos passava pela cabeça”.
Por sua vez, Sérgio Araújo deixou o tributo da comunidade: “Devemos ter um orgulho tremendo por 11 homens terem decidido que era necessária uma associação deste tipo para proteger os nossos”. O autarca agradeceu ainda às famílias dos bombeiros, sem as quais, disse, este trabalho não seria possível.
O Estado, o voluntariado e o futuro
Na sessão solene, o secretário de Estado da Proteção Civil, que foi durante quase duas décadas dirigente de uma associação de bombeiros, recordou que, sem o voluntariado, a capacidade de resposta do país seria muito mais difícil e defendeu que valorizar os bombeiros passa também por ouvir as suas preocupações. Por isso, Rui Rocha decidiu manifestar três compromissos.
O primeiro é a uniformização dos apoios. “Não faz sentido que o reconhecimento de um bombeiro seja diferente em função do município onde reside ou onde exerce o seu trabalho”, afirmou, anunciando que a Associação Nacional de Municípios se comprometeu a apresentar, até ao final do ano, um regulamento uniforme de apoios sociais e fiscais.
Sobre o estatuto da carreira, está constituído um grupo de trabalho que está “por um fio de consensualizar”, com a Liga dos Bombeiros Portugueses e as associações do setor, o estatuto de quem tem contrato de trabalho com as associações humanitárias, a que se seguirá uma tabela remuneratória e a atualização da tipificação dos corpos de bombeiros. Rui Rocha anunciou que Governo já avançou este ano com mais 20 equipas de intervenção permanente e pediu reforço orçamental para mais 50.
O terceiro compromisso é o financiamento. O governante revelou que o levantamento da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil aponta para necessidades de “550 milhões de euros” em viaturas, quartéis, autoescadas e outros meios, mas não prometeu soluções para amanhã.
Direção em fim de ciclo?
Do lado da corporação, as preocupações são conhecidas. Luís Elias admitiu que a instituição está financeiramente “tranquila, mas não desafogada” e que persistem divergências quanto ao ritmo da resolução dos problemas, nomeadamente carreira, tipificação e seguros, fundamentais para fixar bombeiros nas associações.
Sobre o futuro da própria direção, Luís Elias deixou uma nota de prudência: o mandato está a chegar ao fim e há “fatores operacionais e administrativos” que podem “condicionar a continuidade”. “Podemos estar num fim de ciclo”, admitiu, sem nada de definitivo.
Uma mão “amarela” na hora da festa
Para que todos os operacionais da Trofa pudessem participar nas cerimónias e no almoço de aniversário, os Bombeiros Voluntários Tirsenses asseguraram o socorro no concelho durante o dia, mantendo duas viaturas de socorro pré-hospitalar no quartel da Trofa. Garantiram a resposta a emergências, urgências e incêndios, para que a população nunca ficasse sem cobertura.


