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Linha do Equilíbrio | Ser mãe é um processo construtivo
A maternidade, historicamente associada a um modelo tradicional, está a viver profundas transformações. Hoje, falar de maternidade implica também incluir experiências diversas: de mães “a solo” que assumem integralmente a criação dos filhos; de mães por adoção que constroem vínculos fora da “lógica genética”; e de mães em casais do mesmo sexo que desafiam as normas sociais, ainda marcadas por preconceitos.
As experiências da maternidade, embora distintas de mulher para mulher, compartilham um elemento central: o vínculo afetivo, como eixo estruturante da relação mãe-filho. Assim, a configuração familiar atual revela múltiplas formas de exercer o cuidado, o afeto e a responsabilidade parental, exigindo da psicologia um olhar mais amplo, sensível e atualizado sobre as novas subjetividades de ser mãe.
Do ponto de vista psicológico, a maternidade vai muito além do ato de procriar, ou seja, engloba a função relacional, que se estabelece na capacidade de cuidar, acolher e responder às necessidades emocionais de uma criança. É no vínculo, e não no sangue, que a maternidade se sustenta. Talvez esta seja uma perspetiva do que significa ser mãe, evitando, desta forma, as definições fechadas, mas abrindo às possibilidades de reconhecer e acolher a pluralidade dessas experiências, com menos julgamento e maior sensibilidade, que definem a realidade de cada mulher.
Ser mãe inclui também um processo interno. A chegada de um filho, frequentemente, mexe com sentimentos profundos: memórias da própria infância, relações com figuras parentais e expectativas, muitas vezes idealizadas, sobre o que significa ser mãe. É comum que, junto ao amor e à conexão, surjam sentimentos como insegurança, ambivalência e exaustão. Ainda assim, esses aspetos são pouco legitimados socialmente, o que pode gerar culpa e sensação de inadequação pela “nova” mãe.
Neste cenário, a validação da experiência materna torna-se essencial. Reconhecer que não existe uma mãe perfeita, mas sim mães reais, com limites, dúvidas e lacunas, é um passo importante para a promoção de saúde mental. A psicologia reforça a ideia de que o desenvolvimento saudável de uma criança não depende de perfeição, mas de uma presença suficientemente estável, capaz de reparar falhas e sustentar o vínculo ao longo do tempo. Validar uma mãe é reconhecer as suas ambivalências, os seus limites, as suas dúvidas e os seus cansaços sem julgamento. É permitir que ela exista para além do papel materno, resgatando a sua individualidade.
Outro elemento fundamental, muitas vezes invisível aos olhos, é a rede de apoio. Nenhuma maternidade deveria ser vivida em isolamento. A presença de outras figuras significativas, como companheiros/ família, amigos e, em especial, os avós, podem oferecer para além da ajuda prática, suporte emocional. Os avós, frequentemente, ocupam um lugar de transmissão de conhecimento, de acolhimento e de validação, que ajudam a mãe sentir-se amparada na sua jornada. A ausência dessa rede pode intensificar os sentimentos de inadequação, exaustão e isolamento, enquanto a sua presença fortalece a autonomia e o bem-estar materno.
Falar do bem-estar materno implica falar de autocuidado materno. Nos dias de hoje, em que ainda se valoriza a sobrecarga materna como sinal de dedicação, cuidar de si pode parecer, para a mãe, secundário ou até egoísta. No entanto, o autocuidado é uma condição para o cuidado ao outro. Uma mãe que encontra espaço para si amplia a sua capacidade de estar emocionalmente disponível, contrariando os sentimentos de esgotamento.
Durante muito tempo, a maternidade foi tratada como um destino natural, quase instintivo, associado exclusivamente à biologia e envolto em ideais de perfeição e abnegação. Hoje, à luz da psicologia, essa visão está mais ampla: ser mãe não é um estado fixo, mas um processo em constante construção.
Feliz dia para todas as Mães!


