O regresso do mítico Festival Vilar de Mouros – que no início do século em conjunto com Paredes de Coura e Sudoeste formava o trio dos festivais de música em Portugal – ocorreu de 31 de Julho a 2 de Agosto depois de um hiato de vários anos (a última edição tinha ocorrido em 2006). 

A primeira noite começou com uma representativa brigada portuguesa. Primeiro, os “miúdos” Capitão Fausto, quinteto que tem andado na estrada muito ocupado na promoção do seu segundo álbum de estúdio, Pesar O Sol  e de seguida, os veteranos Trabalhadores do Comércio, responsáveis por êxitos como Chamem a PolíciaA Cançom Que o Abô MinsinouA Chabala do Meu CuraçomApunhalaste a Minha MãeMolhareita Fartura na Tua Tassa Quente ou Taquetinho Ou Lebas Nu Fucinhu. Os Blind Zero seguiram-se com a tarefa de abanar a assistência dessa noite, e para tal recorreram a muitos temas conhecidos que têm marcado uma carreira que conta já com duas décadas de existência. La Unión, grupo madrileno formado em 1984 rendeu os portugueses no palco e apresentou-se como que saído diretamente de meados dos anos 1990. Lobo hombre en París, numa versão mais electrónica, foi o momento mais aplaudido de um espetáculo repleto de baladas e algum rock progressivo. As atenções iriam recair, porém, sobre os veteranos UB40; mas apesar de o recinto se ter ido compondo lentamente até ao início da atuação dos britânicos, a assistência da noite foi francamente reduzida.

 A segunda noite de Vilar de Mouros começou a animar-se com um senhor que dispensa apresentações, com os seus temas Como um Macaco Gosta de Banana, Ontem, Hoje e Amanhã, Vem Viver a Vida e Cai Neve em Nova Iorque, e que editou o seu primeiro álbum em 1967 (com o seu famoso Quarteto 1111). Fala-se de José Cid, claro. De seguida, os Blasted Mechanism tomaram conta do palco para o incendiar com a sua atuação energética, e terão entretido aqueles que esperavam por The Stranglers. A banda inglesa formada no início da década de 70, era a mais esperada da noite, e a esse facto não será alheia a presença na histórica edição de 1982 que durou nove dias e que na altura lançou um novo conceito na organização deste tipo de eventos em Portugal. Quem os viu nesta edição terá certamente feito apelo a boas recordações de outros tempos. A fechar a noite Pedro Abrunhosa animou as hostes, recorrendo a muitos dos seus êxitos de sempre, e a alguns temas novos. A chuva começou a cair no início do concerto do Português e prolongou-se durante a noite tendo feito temer o pior para o último dia do festival.

Mas o tempo melhorou, e isso, associado ao cartaz de sábado com nomes mais apelativos e mais capazes de atrair público a Vilar, explica esta ter sido a noite com mais afluência de público. The Legendary Tigerman abriu as hostilidades no Palco Principal, acompanhado de bateria e saxofone. Quem cedo chegou ao recinto para os concertos da noite foi recompensado pela grande dedicação de Paulo, e pela energia e entrega que colocou na atuação. Seguiram-se os portugueses Deolinda, que apresentaram um misto de temas do mais recente Mundo Pequenino, e outros já muito familiares de todos. Uma atuação animada que teve como pormenor delicioso a presença de Paulo Furtado, aka The Legendary Tigerman, para tocar Clandestino, uma das músicas do primeiro disco dos Deolinda, Canção ao Lado. Numa noite dominada pelos portugueses, seguiu-se um grande concerto dos sempre queridos Xutos & Pontapés. Tocaram êxitos que todos conhecem, como Maria, Contentores, Casinha, Homem do Leme, Vida Malvada, Circo de Feras e alguns temas do novo Puro, como De Madrugada e fizeram o público saltar e cantar em uníssono com eles. Se há concerto que nesta edição fez lembrar os momentos de ouro de Vilar de Mouros, foi este dos Xutos, mesmo com Tim a apresentar uma voz um pouco rouca. Segiu-se Tricky, num concerto que ficou marcado por pausas excessivas entre músicas, e pela saída do músico a meio do concerto. Tricky voltou mais tarde, depois de o palco ter ficado entregue aos músicos que o acompanhavam, mas esta atuação esteve longe do melhor que o inglês sabe fazer. A fechar a noite, e o festival, estiveram os alemães Guano Apes, que aproveitaram a passagem por Portugal, onde têm ainda muitos fãs, para apresentar os temas do seu mais recente trabalho Offline.

Em cada dia do festival, o final da tarde ficou ainda marcado por concertos no Sunset World Music (Paulo Baixinho & The Sould Brothers e Youthculture), no Sunset Jazz & Blues (Trio Págu e Budda Power Blues) e no Sunset Rock (The Lazy Faithful e Bufalo).

O cartaz da edição 2014 de Vilar de Mouros que foi fechado a apenas um mês do festival e a falta de um grande nome para arrastar as massas talvez explique uma afluência de festivaleiros que terá ficado aquém das expectativas. A organização, levada a cabo pela Fundação AMA Autismo, fala em ano zero e assim sendo, só se poderá melhorar. No espírito de muitos dos que rumaram a Caminha a semana passada terá ficado o desejo de que o festival cresça, pois Vilar de Mouros será sempre único nas suas memórias, facto presente nas conversas de todos que este fim-de-semana rumaram ao norte de Portugal. 

Texto: Joana Vaz Teixeira
Fotos: Miguel Pereira

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