Fique ligado

Crónicas e opinião

Escrita com Norte | O fim das férias

José Calheiros

Publicado

em

Há pessoas que dizem que o fim das férias é bom para voltar à rotina…Hummm!

Essas pessoas, provavelmente, não têm emprego ou, então, trabalham num sítio onde a rotina consiste em beber um café, olhar pela janela e decidir se vão trabalhar hoje ou amanhã.

Para o comum dos mortais, o fim das férias é aquele momento em que percebemos que passámos duas ou três semanas a sonhar com liberdade e, de repente, alguém nos vem lembrar que existe uma coisa chamada segunda-feira e que ela se repete todas as semanas.

As férias começam com aquela sensação maravilhosa de que temos tempo para tudo.

Publicidade

Acordamos sem despertador, tomamos o pequeno-almoço devagar, fazemos planos, passeamos, comemos onde nos apetece e, sobretudo, ficamos perdidos no tempo, sem saber que dia é.

— Hoje é terça-feira?
— Não sei.
— Então?
— Acho que é sexta!

Isto é qualidade de vida… até que chega o último domingo.

E aí começa o processo de luto.

Primeiro pensamos:

“Ainda falta um dia.”, depois, “Bom, amanhã ainda é domingo.” e, finalmente, “Poça, amanhã é segunda.”

É neste momento que começamos a olhar para o relógio com desconfiança, como se ele tivesse alguma culpa.

Na última noite de férias, já ninguém dorme descansado. O cérebro, que durante quinze dias esteve completamente desligado, decide recuperar todo o atraso de uma só vez:

“A que horas tenho de me levantar?”, “Onde estão as chaves?”, “Será que tenho roupa para amanhã?”, “Porque é que não marquei mais uma semana?”, … e “Vou fazer o Euromilhões”.

Na manhã seguinte, o despertador toca. Aliás, GRITA.

É uma coisa completamente diferente.

Durante as férias, às oito da manhã, o despertador seria considerado uma agressão. No regresso ao trabalho, às sete, parece que estamos a ser convocados para uma operação militar.

Levantamo-nos, tomamos banho, vestimo-nos e saímos de casa com aquela expressão de quem foi condenado sem direito a recurso.

Depois vem o trânsito.

Há carros por todo o lado.

Todos parecem estar atrasados.

Todos parecem ter problemas.

E todos parecem dirigir-se exactamente para o mesmo sítio.

O trabalho, entretanto, está lá, imóvel, à nossa espera, feliz por nos ver!

Os e-mails multiplicaram-se durante as férias como coelhos.

Abrimos a caixa de correio e temos 147 mensagens.

Dessas, 43 são “URGENTE”; 27 são “IMPORTANTE” e 12 são “FOLLOW-UP”.

E pelo menos uma é de alguém que escreveu simplesmente:

“Hi José, any update?”

Sim, tenho! Estou de volta e a preparar-me para ficar contente.

Mas há uma coisa positiva no regresso das férias.

Depois de alguns dias, voltamos a entrar no ritmo. No meu caso ao fim de poucas horas.

O corpo habitua-se, a cabeça resigna-se e a carteira respira de alívio.

E começamos novamente a contar os dias.

Segunda, Terça, Quarta, Quinta, Sexta.

E, finalmente, sábado.

Até que alguém pergunta:

— Então, quando vais de férias outra vez?

E nós respondemos, sem hesitar:

— Amanhã, se puder ser.

Porque, no fundo, as férias não acabam verdadeiramente quando regressamos ao trabalho.

Acabam quando deixamos de pensar nas próximas.

Crónica de José Calheiros

Edição Papel

Vê-nos no Tik Tok

Publicidade

          Comer sem sair de casa? clique aqui

Farmácia de serviço

arquivo