Crónicas e opinião
Escrita com Norte | O fim das férias
Há pessoas que dizem que o fim das férias é bom para voltar à rotina…Hummm!
Essas pessoas, provavelmente, não têm emprego ou, então, trabalham num sítio onde a rotina consiste em beber um café, olhar pela janela e decidir se vão trabalhar hoje ou amanhã.
Para o comum dos mortais, o fim das férias é aquele momento em que percebemos que passámos duas ou três semanas a sonhar com liberdade e, de repente, alguém nos vem lembrar que existe uma coisa chamada segunda-feira e que ela se repete todas as semanas.
As férias começam com aquela sensação maravilhosa de que temos tempo para tudo.
Acordamos sem despertador, tomamos o pequeno-almoço devagar, fazemos planos, passeamos, comemos onde nos apetece e, sobretudo, ficamos perdidos no tempo, sem saber que dia é.
— Hoje é terça-feira?
— Não sei.
— Então?
— Acho que é sexta!
Isto é qualidade de vida… até que chega o último domingo.
E aí começa o processo de luto.
Primeiro pensamos:
“Ainda falta um dia.”, depois, “Bom, amanhã ainda é domingo.” e, finalmente, “Poça, amanhã é segunda.”
É neste momento que começamos a olhar para o relógio com desconfiança, como se ele tivesse alguma culpa.
Na última noite de férias, já ninguém dorme descansado. O cérebro, que durante quinze dias esteve completamente desligado, decide recuperar todo o atraso de uma só vez:
“A que horas tenho de me levantar?”, “Onde estão as chaves?”, “Será que tenho roupa para amanhã?”, “Porque é que não marquei mais uma semana?”, … e “Vou fazer o Euromilhões”.
Na manhã seguinte, o despertador toca. Aliás, GRITA.
É uma coisa completamente diferente.
Durante as férias, às oito da manhã, o despertador seria considerado uma agressão. No regresso ao trabalho, às sete, parece que estamos a ser convocados para uma operação militar.
Levantamo-nos, tomamos banho, vestimo-nos e saímos de casa com aquela expressão de quem foi condenado sem direito a recurso.
Depois vem o trânsito.
Há carros por todo o lado.
Todos parecem estar atrasados.
Todos parecem ter problemas.
E todos parecem dirigir-se exactamente para o mesmo sítio.
O trabalho, entretanto, está lá, imóvel, à nossa espera, feliz por nos ver!
Os e-mails multiplicaram-se durante as férias como coelhos.
Abrimos a caixa de correio e temos 147 mensagens.
Dessas, 43 são “URGENTE”; 27 são “IMPORTANTE” e 12 são “FOLLOW-UP”.
E pelo menos uma é de alguém que escreveu simplesmente:
“Hi José, any update?”
Sim, tenho! Estou de volta e a preparar-me para ficar contente.
Mas há uma coisa positiva no regresso das férias.
Depois de alguns dias, voltamos a entrar no ritmo. No meu caso ao fim de poucas horas.
O corpo habitua-se, a cabeça resigna-se e a carteira respira de alívio.
E começamos novamente a contar os dias.
Segunda, Terça, Quarta, Quinta, Sexta.
E, finalmente, sábado.
Até que alguém pergunta:
— Então, quando vais de férias outra vez?
E nós respondemos, sem hesitar:
— Amanhã, se puder ser.
Porque, no fundo, as férias não acabam verdadeiramente quando regressamos ao trabalho.
Acabam quando deixamos de pensar nas próximas.
Crónica de José Calheiros


