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Correio do Leitor | Metro à Trofa — uma oportunidade perdida para sempre

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Há decisões políticas que condicionam um mandato. Outras podem condicionar várias gerações.

A decisão sobre a extensão da rede do Metro do Porto até à Trofa pode ser uma dessas decisões.

E o mais curioso é que nem precisamos de inventar promessas ou interpretações. O próprio Programa do Governo de Luís Montenegro identifica a Trofa entre as novas linhas do Metro do Porto a avançar em “modo ferroviário ligeiro”.

Ferroviário ligeiro.

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Não diz Metrobus.

Não diz autocarro em corredor dedicado.

Não fala numa solução intermédia para a maior parte do concelho.

E, no entanto, é precisamente isso que está em cima da mesa: depois da estação do Muro, toda a extensão prevista para a Trofa será assegurada por Metrobus.

A diferença não é semântica. É estrutural.

Não foi para isto que os trofenses andaram 24 anos a lutar.

Uma solução de metro ligeiro representa uma infraestrutura ferroviária permanente, com maior capacidade, conforto e previsibilidade, além de poder proporcionar velocidades comerciais elevadas quando inserida num canal próprio. Mais do que transporte, uma infraestrutura desta natureza pode influenciar durante décadas a localização de empresas, o investimento, a habitação e o próprio ordenamento do território.

O Metrobus tem vantagens e pode ser adequado em determinados contextos. Mas continua a ser um sistema rodoviário, com características e capacidade diferentes de uma solução ferroviária.

Há ainda uma questão muito concreta: quem viajar das zonas servidas pelo Metrobus terá de fazer transbordo no Muro para continuar a viagem em metro ligeiro.

Para quem utiliza diariamente os transportes públicos, isto significa uma interrupção adicional, mais tempo de viagem e menor comodidade. E, se a alternativa for pouco competitiva face ao automóvel, estaremos a manter precisamente aquilo que queremos combater: a dependência do transporte próprio.

Não se trata de afirmar que o Metrobus é inútil. A questão é outra:

É esta a solução que melhor responde às necessidades futuras da Trofa?

A experiência de outras cidades europeias deve ser analisada. Caen, em França, é um exemplo particularmente relevante: depois de anos com um sistema intermédio sobre pneus, acabou por avançar para o metro convencional, perante problemas de fiabilidade, manutenção e a necessidade de uma solução mais robusta para o futuro.

Não é que o Metrobus seja sempre uma má solução. É que as decisões de hoje devem ser tomadas a pensar na procura e nas necessidades de amanhã.

E é aqui que a discussão deixa de ser apenas técnica.

Passa a ser política.

Se o próprio Governo fala em “modo ferroviário ligeiro”, porque terá a Trofa metro até ao Muro e metrobus daí para a frente?

Quem aceitou esta solução?

Quem a negociou?

Quem a defendeu?

Estas perguntas são para todos os responsáveis políticos.

O Município da Trofa é atualmente governado pelo PSD com o apoio do PS e importa saber claramente qual é a posição do executivo municipal perante esta solução.

O PS, que no passado defendeu que esta não era a solução, mudou de opinião?

O TDT e o Chega consideram-na adequada?

Mas há uma pergunta ainda mais importante: O que pensam os trofenses?

Não estamos a discutir apenas mais uma obra. Estamos a decidir uma infraestrutura que poderá condicionar o desenvolvimento da Trofa durante décadas.

A Trofa tem uma oportunidade histórica para reforçar a sua ligação à Área Metropolitana do Porto, melhorar a mobilidade e apoiar as suas áreas empresariais.

O futuro da Trofa merece uma visão para várias décadas, não uma solução para alguns anos.

E daqui a 20, 30 ou 50 anos, quando voltarmos a discutir congestionamento, transportes públicos, acesso às zonas industriais e dependência do automóvel, será legítimo perguntar:

Quem decidiu que a Trofa merecia menos do que aquilo que estava escrito no próprio Programa do Governo?

E, sobretudo: Quem teve oportunidade de defender mais e decidiu aceitar menos?

Artigo de Pedro Castro

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