Crónicas e opinião
Esta Estação não é para Velhos
Foi há dois meses e meio, no início de Maio, que tomei consciência de um problema na estação ferroviária da Trofa que se arrastava há meses. Apesar de ser utilizador frequente da linha que liga a Trofa ao Porto, e de me ter deparado inúmeras vezes com o problema em questão, foi preciso que a minha amiga Isabel me chamasse a atenção para que tomasse consciência do mesmo.
Porquê?
Porque, sendo franco, era um problema que não me afectava. E como não me afectava, o meu cérebro não se deu sequer ao trabalho de o racionalizar.
O problema em questão diz respeito às escadas rolantes que transportam as pessoas do piso térreo para o andar de cima, onde os comboios param para a entrada e saída de passageiros. E estando eu na frescura dos meus 42 anos, subir aquele lance de escadas não me causa grande esforço, razão pela qual fiquei indiferente à avaria.
Quando a Isabel me chamou a atenção para o problema, porém, ocorreu-me imediatamente algo que antes não me tinha ocorrido: sendo indiferente para mim – que, percebo agora, era uma visão bastante egoísta do problema – não o é para as pessoas mais velhas ou com mobilidade reduzida, que necessitam daquele apoio. E se pensarmos que esta situação se arrasta há vários meses, percebemos que isto tem impacto negativo na vida de muitas pessoas.
Na altura, escrevi uma curta nota na minha página de Facebook. E o impacto foi muito superior ao que imaginei. Não pelas métricas de “engajamento”, que até foram consideráveis, mas pela quantidade de conterrâneos que me escreveram a partilhar a sua indignação com a situação em causa. Pessoas de idade mais avançada, na sua maioria, mas também filhos e netos de pessoas que, fruto desta avaria, tinham passado a ter um problema perfeitamente evitável nas suas vidas.
Entretanto, com o fim do campeonato de futebol, as minhas viagens até Contumil, para ver jogar o meu FC Porto, foram temporariamente suspensas. Contudo, no passado fim-de-semana, tive necessidade de me deslocar até ao Porto e optei pelo meu meio de transporte preferencial: o comboio. E qual não foi o meu espanto quando, chegado à estação, percebo que as escadas rolantes continuam avariadas.
Regresso às palavras que escrevi em Maio, aquando da publicação da referida nota no Facebook: julgo que a responsabilidade pela manutenção destes equipamentos será da exclusiva responsabilidade da CP – Comboios de Portugal ou da Infraestruturas de Portugal.
No entanto, entendo que compete à Câmara Municipal da Trofa zelar pelo bem-estar dos trofenses, e pela boa manutenção dos equipamentos públicos que os servem, pelo que reforço hoje o meu apelo de então, para que as autoridades competentes façam o que é devido: servir a população.
E servir a população, neste caso, significa pressionar, se necessário todos os dias, a entidade responsável pela manutenção daquele equipamento. É inaceitável que todas as escadas rolantes da estação da Trofa estejam avariadas há tanto tempo, sem que se encontre uma solução para o problema. Porque prejudica a vida de centenas, senão mesmo milhares de pessoas, que, é importante não esquecer, são as mesmas que contribuem com os seus impostos para a manutenção geral do país.
Nada justifica que uma situação destas se arraste há tanto tempo, afectando sobretudo pessoas fisicamente mais vulneráveis. Estou convencido de que o executivo camarário não será alheio ao problema, e que terá envidado esforços no sentido de resolver o problema, mas, se a solução não aparece, talvez esteja na hora de marcar um protesto para a estação, chamar os órgãos de comunicação social que adoram estas histórias e tornar esta pouca vergonha tema nacional.
Talvez assim, quem sabe, os aristocratas políticos de Lisboa tomem consciência do problema e decidam resolvê-lo. Se ficarmos sentados à espera, corremos o risco de encontrar a mesma solução que nos foi oferecida aquando da extinção da via estreita para a vinda do metro que nunca veio nem há-de vir.
Artigo de opinião de João Mendes


