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Escrita com Norte | A Dona Arnaldina

José Calheiros

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Há pessoas que passam pela vida devagarinho.

A Dona Arnaldina passou noventa e cinco anos a fazê-lo. Não por falta de vontade, mas porque os joelhos, principalmente nos últimos tempos, entendiam que qualquer deslocação merecia uma reunião prévia.

Os médicos chamavam-lhe idade. Ela chamava-lhe chatice.

Quando lhe perguntavam como estava, nunca respondia: «Bem». Isso seria faltar à verdade. Fazia sempre um inventário rigoroso das avarias. Primeiro os joelhos. Depois as costas. A seguir a cabeça. Se ainda houvesse tempo, lembrava-se do estômago ou de qualquer outro órgão que entretanto tivesse decidido tirar férias ou reformar-se.

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No entanto, por vezes, havia uma estranha contradição. Quanto pior dizia estar, melhor disposição parecia ter.

Nos almoços de família sentava-se sempre na cabeceira da mesa. Não porque mandasse em alguém, era simplesmente o lugar que lhe pertencia por direito de antiguidade. À sua frente desfilavam filhos, netos, bisnetos e alguns familiares cuja ligação nunca consegui perceber muito bem, mas que apareciam sempre à hora do cabrito, tal como eu, quando era convidado.

A conversa espalhava-se pela mesa. Uns falavam de política. Outros de futebol. Havia quem discutisse o preço da gasolina com a mesma paixão com que outros discutem pesca ou a tropa.

A Dona Arnaldina ouvia tudo em silêncio.

Quando todos julgavam que ela estava distraída, largava uma frase curta e certeira, geralmente mais inteligente do que tudo o que tinha sido dito nos dez minutos anteriores.

Seguia-se um breve silêncio.

Metade da mesa continuava a comer sem perceber e a outra metade ria por educação.

E eu olhava para ela.

Ela olhava para mim. Sorria e piscava-me o olho.

Nunca soube se era eu que entendia as piadas dela ou se era ela que fazia piadas apenas para ver se alguém ainda estava acordado. Mas sempre senti que me tinha escolhido para cúmplice!

Nos últimos anos foi viver para um lar.

Há quem diga que os lares são o fim de uma vida. Nunca concordei.

No caso da Dona Arnaldina, foi apenas uma mudança de casa. Todos os dias tinha por perto a filha, a Mira, que lá trabalha.

Contaram-me que ela continuou a observar toda a gente e a comentar o necessário, respondendo apenas ao que lhe interessava responder.

A máquina, essa, começou lentamente a desligar-se.

Primeiro uma peça, depois outra, sem pressas, como quem sabe que trabalhou muito e já não deve nada a ninguém.

Há uma semana, o corpo descansou de vez.

Imaginei-a a dizer:

— Já cortei a meta com direito a pódio. Vou para outras bandas!

Noventa e cinco anos! Não é uma idade, é quase um século de histórias.

Tenho pensado nela muitas vezes, sobretudo quando alguém me pergunta como estou.

Dou por mim a responder:

— Não muito bem… são os joelhos…

Depois lembro-me de que ainda não tenho desculpa e sorrio.

Tenho a certeza de que, onde quer que esteja, a Dona Arnaldina percebeu a piada antes de todos os outros.

E provavelmente piscou-me o olho.

Crónica de José Calheiros

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