Crónicas e opinião
Escrita com Norte: O coelho está diferente
O almoço de família tinha a atmosfera habitual de domingo: talheres a bater de forma mais ou menos leve nos pratos, conversas cruzadas que apanhavam palavras em contramão e constantemente se perguntava, “O quê?”, e estômagos, cada vez mais impacientes, por um almoço prometido para as 13:30, quando foi servido já passava das 14!
Com a paz de regresso à mesa pelo cheiro do estufado e a visão do coelho nos pratos, as bocas deram descanso às palavras e as língua s dedicaram-se a apreciar sabores.
Com a naturalidade de quem comenta o tempo ou a conta da luz, o pai disse:
— O coelho está diferente.
Não disse bom nem disse mau. Não explicou nem dramatizou. Apenas constatou. Uma frase simples, quase clínica, lançada sobre a mesa como quem pousa uma colher.
Durante dois segundos, ninguém reagiu. Só o som dos talheres continuou, como se a família estivesse a fazer um teste para ver se aquilo tinha sido mesmo dito ou se tinha sido imaginação colectiva.
Cautelosa, veio a primeira pergunta:
— Diferente como?
O pai encolheu os ombros, sentindo que o suave bater de asas de uma borboleta na China iria abalar o seu almoço de família na Trofa:
— Diferente… está diferente.
A mãe pousou o garfo com uma precisão demasiado consciente.
— Se está diferente, quer dizer que não está como devia estar.
O pai franziu o sobrolho, sentindo que entrou num caminho estreito, sem retorno.
— Eu não disse isso.
Mas a frase inicial tinha começado a ser reinterpretada, como um documento antigo passado de mão em mão, perdendo tinta a cada leitura.
O filho mais velho entrou no debate como quem entra no cinema com o filme a meio, confundindo o herói com o bandido:
— Também não é preciso dizer tudo directamente. Quando alguém diz que está diferente, normalmente não é elogio.
A irmã mais nova, que até então tinha estado mais interessada no telemóvel do que na conversa, levantou os olhos e decidiu contribuir:
— Se calhar o coelho está diferente porque a mãe fez outra receita.
Houve silêncio, breve mas promissor. Era uma hipótese prática e objectiva, quase reconciliadora, mas foi de pouca dura.
— Não, não foi a receita. Foi ele que disse que estava diferente.
— Eu só disse que estava diferente. Não disse que estava pior. — retorquia o pai, mas, naquele universo, cada palavra já vinha com carga emocional e por vezes filosófica.
— Tu estás sempre a criticar tudo!
— Mas eu nem critiquei nada…
— Pois não, agora já te fazes de santo!
O primo Abílio, convidado para passar por casa para tomar café no fim do almoço, apanhou uma discussão sobre um prato de coelho mal feito, quando, na realidade, nunca tinha existido essa acusação, apenas uma observação perdida no caminho.
No fim, o pai pegou novamente no garfo, olhou para o prato e disse, mais para si do que para os outros:
— Nem sequer disse se estava bom ou mau…
Mas já ninguém respondeu. A conversa tinha seguido o seu curso natural, afastou-se do que tinha sido dito, até se tornar irreconhecível.
E o almoço continuou, como continuam todos os almoços de família depois de uma frase simples que, por azar ou destino, decidiu ser mal interpretada!
Crónica de José Calheiros


