Fechar
Fique ligado

Crónicas e opinião

Escrita com Norte: Em busca da fama perdida (parte 2)

Zé Musgo chega tarde e o campo, cuja iluminação é garantida pelos faróis acesos do Datsun 1200 do treinador, já está cheio de miúdos, entre os doze e os catorze anos.

José Calheiros

Publicado

em

Apesar da divulgação neste jornal, com destaque de primeira página, na edição de 05/11/2025, da tentativa falhada de Zé Musgo andar a maior distância possível nas águas do rio Ave e bater um recorde alcançado há mais ou menos dois mil anos, registado num livro não oficial de recordes, ele não é de desistir, e outras ocasiões para a fama iriam surgir!

Logo no início do ano, quando seguia para a formação remunerada de serralheiro, ouviu dois miúdos a comentar que, dali a dois dias, ia haver um treino de captação para iniciados, no clube de futebol, Os Ferroviários da Trofa. Quando chega ao local da formação e coloca a mão na maçaneta da porta da sala, pára, e a cabeça começa a pensar:

– O que estou aqui a fazer?! Serralheiro… Tenho “peses” para ser um grande jogador, e logo dois, portanto tenho o dobro das hipóteses de ter sucesso!

Zé Musgo não chega a abrir a porta, dá meia volta e vai tratar do seu futuro. Ele seria um jogador rico e famoso. Sem equipamento, o primeiro passo seria pedir um. Falou com todos os seus amigos e apenas nos últimos conseguiu arranjar, mais ou menos, o que queria. Com o Costa, em vez de uns calções, arranjou uns collants; com a Palmirinha, em vez de uma t-shirt, arranjou uma blusa, às listas verdes e brancas; e com o Bilinho, em vez de umas chuteiras, arranjou umas sabrinas, dos tempos em que praticava ballet. Zé Musgo, sentia-se preparado!

Publicidade

Chega o dia e a hora do treino de captação. É de noite. Zé Musgo chega tarde e o campo, cuja iluminação é garantida pelos faróis acesos do Datsun 1200 do treinador, já está cheio de miúdos, entre os doze e os catorze anos. Aproxima-se do treinador e:

– Olá!

– Olá!

Durante cinco minutos ficam calados a olhar um para o outro. Zé Musgo, à espera que o treinador lhe perguntasse o que fora lá fazer; o treinador, à espera que Zé Musgo lhe dissesse o que lá estava a fazer; e os miúdos, à espera que o treino começasse.

– Pois é, está frio! – Diz o treinador Albertino, para desbloquear o impasse.

– Pois está, o que me vale são estes collants, que um amigo me arranjou, são quentinhos!

– É verdade! Mas a blusa é muito fresca, não é? – pergunta Albertino.

– É um bocadinho, porque é aberta nas costas! – explica Zé Musgo, virando as costas a Albertino.

– É, eu queria oferecer uma assim à minha mulher, mas não consigo encontrá-la!

– Mas vêem-se muitas blusas destas à venda! – diz Zé Musgo.

– Desculpe, você não percebeu, eu não encontro é a minha mulher! Nunca me esqueço daquela noite em que ela me disse: “Ó Tino, vou lá fora comprar um maço de alfaces e venho já…”. Nunca mais apareceu! – explica Albertino, comovido.

Para uns seria uma sorte. O meu tio Manuel Augusto era capaz de pagar para que a minha tia Maria Albertina desaparecesse! Ela é tão chata…
E são interrompidos por um miúdo:

– Comé Mister, nã se trena?!

Ao qual o treinador Albertino reponde:

– Ó puto, põe-te na alheta, estás dispensado!

E o miúdo, que tinha vindo de propósito da Vidigueira para prestar provas no, Os Ferroviários da Trofa, sai do campo em lágrimas. Era um sonho destruído!

– E você, o que está cá a fazer? Veio trazer o seu filho? – pergunta Albertino a Zé Musgo.

– Não, não. Eu venho prestar provas, estou aqui para treinar!

– Mas você tem entre doze e catorze anos?! – pergunta novamente Albertino.

– Não!

– Então não pode treinar!

– Está bem!

– Ok.

– Boa.

– Certo.

– Pois é.

– Está a ficar frio!

– Pois está, vou-me embora! – diz Zé Musgo.

Dá meia volta e desaparece na escuridão da noite, como Dom Sebastião, que nunca apareceu numa manhã de nevoeiro.

E assim, com um simples pormenor de idade, Zé Musgo perde mais uma oportunidade de ser famoso!

Edição Papel

Vê-nos no Tik Tok

Publicidade

          Comer sem sair de casa? clique aqui

Farmácia de serviço

arquivo