Alfredo da Costa Ferreira, um dos proprietários da empresa, recordou os momentos em que laborava na Paulino e Filhos. A oficina faz parte da Rota do Património Industrial do Vale do Ave.

O caminho-de-ferro foi um meio importante para o desenvolvimento de várias indústrias da Trofa. A oficina Paulino e Filhos é um exemplo. Fundada em 1900, na Rua Américo da Camila, pelo avô de Manuel Paulino e Alfredo da Costa Ferreira, esta oficina familiar dedicava-se à construção de peças e máquinas relacionadas com a agricultura. Volvidos 25 anos, a empresa mudou-se para a Rua Costa Ferreira, local onde ainda a pode visitar.

Aí começou a dedicar-se, também, às peças de indústria têxtil, fazendo máquinas para padaria e lanifícios, acessórios têxteis e prensas para espremer uvas, por exemplo. Uma fábrica, com um máximo de 15 funcionários, que era conhecida por ser um local familiar, pois lá chegaram a trabalhar primos e sobrinhos de Alfredo da Costa Ferreira, um dos proprietários da Oficina.

Em 2007, a Paulino e Filhos deixou de laborar. As razões foram várias, nomeadamente a morte do seu irmão, Manuel Paulino, que estava encarregado pela fábrica. Como não havia ninguém da família que quisesse continuar com o bom trabalho, a área têxtil não andava bem e seria necessário investimento, “foi melhor encerrar”. Mas antes disso, os proprietários esperaram que todos os funcionários chegassem à reforma, às vezes com prejuízo, para depois fecharem.

Na opinião de Alfredo da Costa Ferreira, esta oficina foi importante para o desenvolvimento da Trofa, tendo sido das primeiras, deste género, no concelho. Além disso, “levou o nome da Trofa a muitos lados”, como por exemplo através dos engenhos, que serviam para tirar água. Já para não falar dos lanifícios que eram feitos para a zona de Covilhã, Fundão, Gouveia, Guarda, entre outros. “Esta firma, dentro da sua dimensão, foi boa para a economia local, porque empregou pessoal, dinamizou e levou o nome da terra a muitos lados”, afirmou. Foi através das empresas, desde serração, metalúrgica, fundições, que a Trofa se tornou num meio industrial “muito bom”.

Os transbordos de mercadorias e de comboios eram feitos na estação de caminho-de-ferro, sendo esse o principal motivo do crescimento da Trofa, que se desenvolveu “à sua volta”. Outro aspeto importante era o facto de o concelho estar bem posicionado geograficamente, tendo duas estradas nacionais. “A Trofa chegou a atingir um nível muito bom. A indústria têxtil e a agricultura, que era muito rica, ajudaram a projetar a Trofa”, declarou.

À medida que ia destapando as máquinas, que estão protegidas com plásticos, Alfredo da Costa Ferreira explicava as suas funcionalidades, relembrando as várias histórias do tempo, em que a oficina laborava. “Quando nós carregávamos as máquinas de lanifícios para a Covilhã, que tinham três a quatro metros de comprimento, eram transportadas daqui para a estação, em carros de bois, que era o transporte daquela altura. O carro de bois vinha aqui, fazíamos uma caixa na máquina, daquele comprimento, ela ia para a estação e lá havia um guindaste, que levantava a máquina e a punha no vagão”, relembrou, afirmando que, naquela altura, a estação tinha “muito movimento”.

Outras das suas memórias era da sua avó a tocar um fole, enquanto as pessoas trabalhavam até às 22 e 23 horas, sendo tudo feito manualmente, existindo “um grande esforço”, ou quando iam às serrações comprar cascas de pinheiros para aquecer as peças, que eram mais baratas que o carvão. “Tempos difíceis”, recorda. A Paulino e Filhos é uma das 50 indústrias do Vale do Ave que fazem parte da Rota do Património Industrial. Alfredo da Costa Ferreira conta que os responsáveis pela Rota apareceram na oficina para recolher umas fotografias, não havendo qualquer tipo de compromisso ou autorização, salientando que achava importante que as empresas que fizessem parte da Rota deveriam receber umas verbas para que conseguissem “abrir portas” ao público.

Trofa “merece” Museu industrial e agrícola

Na altura em que a oficina “fechou portas”, os proprietários chegaram a falar com a Câmara Municipal da Trofa, para que aproveitasse as máquinas para fazer um museu industrial. A agricultura não podia ser esquecida, pois, na sua opinião, outrora “foi muito rica”.

Alfredo da Costa Ferreira garante que não vendeu as máquinas, para que os vindouros tenham alguma coisa do passado, além de fotografias. “Convinha realmente preservar, pois isto mais os moinhos e azenhas são coisas muito valiosas, mas infelizmente ninguém liga e está a destruir-se um passado”, afirmou. Além disso, num museu seria mais fácil as pessoas terem uma perceção de como as máquinas funcionavam antigamente. No final, o proprietário expressou o seu desejo: “Espero só que a Trofa esteja virada, para que um dia, pudesse fazer um museu industrial e outro sobre a agricultura. 

Há tanta coisa que se podia fazer, até conseguir as peças gratuitamente”.  

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