Terminada a silly season concelhia, voltou a dar que falar a Operação Éter, investigação da Polícia Judiciária que deu origem a um processo judicial, em fase de instrução, no qual dezenas de autarcas, ex-autarcas, vereadores, gestores públicos e empresários são acusados de vários crimes de corrupção passiva, recebimento indevido de vantagem, participação económica em negócio, abuso de poder e falsificação. Conforme previ, em Outubro de 2018, logo no primeiro de vários textos que, desde então, dediquei a este tema, os estilhaços deste processo chegaram rapidamente à Trofa, com o presidente da CM da Trofa, Sérgio Humberto, a ser constituído arguido, desconhecendo-se ainda as acusações que pendem sobre o autarca.

Não surpreende, a constituição de Sérgio Humberto enquanto arguido neste caso. É dele a assinatura em todos os contratos por ajuste directo, assinados entre a autarquia e as empresas Media 360 e Tomi World, ambas de José Agostinho, uma das figuras centrais, tal como as suas empresas, deste caso.

A principal figura deste processo, porém, é o ex-deputado do PSD, Melchior Moreira, antigo presidente do Turismo do Porto e do Norte de Portugal (TPNP), cuja relação com o actual executivo inclui convites para cerimónias públicas, para alem de ter sido escolhido pelo executivo Sérgio Humberto para presidir ao júri do concurso que promoveu Artur Costa a chefe de divisão da Cultura, Turismo, Desporto e Juventude da CM da Trofa. A narrativa bem pode tentar afastar Sérgio Humberto e Melchior Moreira, mas a verdade dos factos conta-nos outra história: o antigo presidente do TPNP, para além de companheiro partidário, é “da casa”.

Ainda sobre a narrativa que se montou em torno deste caso, e que teve na semana passada um momento de profundo embaraço para a mais poderosa figura da política trofense, a maiata Zita Formoso (ZT), importa esclarecer que, tendo o acordo para a construção da Loja Interactiva do Turismo da Trofa (LITT) sido firmado ainda durante o consulado de Joana Lima, foi com o actual executivo que todos os serviços relacionados com a mesma foram contratualizados. E não, não existe obrigação legal alguma que tenha forçado o actual executivo a escolher as empresas de José Agostinho. Trata-se, única e exclusivamente, de uma opção política de Sérgio Humberto. Opção essa que, presumo, terá agora que explicar em tribunal.

E estava este assunto meio adormecido quando, sem que nada o fizesse esperar, o Porto Canal noticia que Joana Lima era, também ela, arguida da Operação Éter. Quando vi aquilo, confesso, não fiquei surpreendido. Afinal de contas, a autarca esteve envolvida na fase inicial do processo de construção da LITT, pelo que não seria nada de extraordinário se se juntasse a Sérgio Humberto no lote daqueles sobre os quais recaem sustentadas suspeitas de envolvimento nos crimes investigados. Sucede que a notícia era falsa, o que obrigou o Porto Canal a emitir um pedido de desculpas à deputada trofense, que afinal não é arguida neste processo. Por essa altura, contudo, já a poderosa chefe de gabinete de Sérgio Humberto, Zita Formoso, tinha corrido para as suas redes sociais, com o intuito de denunciar o inexistente caso, afirmando, com convicção, que “Assim se faz justiça”.

Reposta que foi a verdade, esperava-se que Zita Formoso fizesse a tal justiça pela qual clamou, e estivesse à altura do cargo que ocupa, repondo imediatamente a verdade com um pedido de desculpas. Não só não o fez, como se remeteu ao silêncio perante quem a confrontou com a mentira.

Porém, bem vistas as coisas, esta é mais uma daquelas situações que não surpreende. Ou não tivesse Zita Formoso visto nascer e morrer o Correio da Trofa, uma fraude que se revelou fundamental para a eleição de Sérgio Humberto, onde as notícias falsas, o enxovalho e a perseguição sem escrúpulos eram o prato do dia. Se nunca se mostrou incomodada com as sucessivas aldrabices daquele embuste, porque se haveria de se incomodar agora? Mais fake new, menos fake new, o que importa, em bom rigor, é o poder. E esse dificilmente lhe escapará.