Uma decisão que decreta a morte anunciada de Alvarelhos é uma decisão leviana e precipitada que poderá conduzir a posterior inusitado arrependimento dos alvarelhenses.

O poder autárquico em Alvarelhos apoia a dita reforma administrativa. Desta nada sabe em concreto porque o livro “negro” apenas traça meros objetivos e pretensões de forma genérica, tirando a parte em que divide o território nacional a régua, esquadro e compasso. O poder em Alvarelhos, composto por PSD e PS aceita e concorda com a “morte” de Alvarelhos, com o fim da sua existência enquanto realidade política, administrativa, histórica, social e cultural. Alguns autarcas e outros cidadãos alvarelhenses partem da ideia de que Alvarelhos continua, com ou sem o nome, e passa a integrar as freguesias vizinhas, Muro e Guidões. Dizer-se isto é enganar o povo, é propalar falsidades. Não estamos perante a criação de um concelho. Não. Nem Alvarelhos vai ser centro de alguma coisa. A imposição troikiana é de se extinguirem as freguesias pela criação de uma nova. E não se fie o poder local alvarelhense que será o centro dessa nova freguesia pelo facto de se encontrar no centro geográfico. Existem razões que podem levar a opções contrárias, como a maior proximidade aos centros de decisão, melhores acessibilidades, criação de novos centros, etc…Ao aceitar a reforma administrativa imposta pelas Troikas o poder em Alvarelhos está a ditar o final da freguesia, o fim da sua identidade e do seu património, pois o que constitui o património senão a sua área política e administrativa, a sua população, o seu nome. Ao aceitar a extinção de Alvarelhos, o poder autárquico risca-a do mapa por vontade própria. Os alvarelhenses estarão de acordo?

E aqui partimos para uma segunda ideia. O que se pretendeu da mencionada assembleia foi uma pretensa resposta positiva à interrogação anteriormente levantada. Nessa assembleia estariam 50, 60 pessoas. Alvarelhos tem 2 678 cidadãos inscritos no seu recenseamento. A amostra foi muito fraca. Para além da encenação ter assentado num pressuposto absolutamente errado, acima identificado, aquela assembleia não foi representativa do pensamento dos alvarelhenses. Por exemplo, em Guidões, essa dúvida não existe. No abaixo-assinado que corre toda a freguesia, sabe-se que o número de assinaturas já caminha e aproxima-se do milhar, sendo que Guidões conta com 1 555 eleitores, tendo sido quase ínfimo o número de pessoas que se mostraram indiferentes ou recusaram assinar. Contam-se pelos dedos de uma só mão. Em Alvarelhos subsiste a dúvida. E é em casos como o de Alvarelhos que se justifica um debate muito mais alargado, mas com verdade e sem subterfúgios. Quem sabe se não é em casos como estes que se justificaria um referendo local.

Por fim, uma última ideia, que os representantes do poder local em Alvarelhos nem sequer equacionaram. Que vantagens advêm para os alvarelhenses concretizando-se a pretendida reforma administrativa? Pois é, aí também nada disseram. Apenas afirmações vagas. A divisão administrativa já é muita antiga e é necessária uma divisão nova. Afirmar-se isto só assim, como fizeram, é fútil. Só se deve proceder a reformas para fazer crescer a qualidade de vida das pessoas. Caso contrário dispensa-se. Ora, Alvarelhos, com o poder local democrático tal como existe, desenvolveu-se e tem respondido positivamente aos anseios e necessidades do seu povo. Conseguirão os habitantes da nova freguesia que substituirá Alvarelhos manter este nível se proceder a reforma administrativa da Troika? Provavelmente não. Pela redução dos meios, dos recursos e pelas dimensões da nova freguesia a ser criada, o povo ficará pior servido e consequentemente, mais pobre.

A reforma administrativa pretendida pelas Troikas não passará, porque o povo não deixará que isso aconteça. A espantosa manifestação do “Movimento Freguesias Sempre” do passado dia 20 de novembro no Porto, o movimento contra a extinção de freguesias que cresce e se alarga de norte a sul, de leste a oeste em todo o país, a monumental vaia que transfigurou o rosto do ministro Miguel Relvas no congresso da ANAFRE, são expressões claras de resistência do nosso povo e dos autarcas à imposição, e são a garantia da exigência do cumprimento da democracia.

Alvarelhos é uma terra antiquíssima. Como disse um amigo meu em determinado momento, Alvarelhos já existia há centenas de anos, quando muitos dos países que compõem a Troika foram criados. Da duplamente milenar “ Avobriga ? ” dos povos Galaicos, melhorada por romanos, habitada por suevos e godos, vistoriada por mouros, até à cristianizada e igualmente milenar terra de Alvarelhos de D. Dinis aos nossos dias, existe uma colossal crónica por descobrir, mas também uma história grande a preservar, que exige honra, dignidade e respeito.

Viva Alvarelhos.

Guidões, 15 de Dezembro de 2011

Atanagildo Lobo

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