Restaurar o respeito

O recente e triste episódio passado na Escola Carolina Micaelis, no Porto, teria passado despercebido, e seria apenas mais um caso, não fora a sua divulgação pela internet, por ter sido filmado por um aluno da mesma turma, ele próprio também com o telemóvel pronto a ser usado.

   O tema da violência nas escolas já tem sido noticiado com alguma frequência e têm acontecido situações porventura mais graves do que aquela que assistimos.

Todos estaremos de acordo que a violência nas escolas é um drama da actualidade, e não só em Portugal, e é, por isso, urgente recuperar o respeito que é devido aos professores e salvaguardar a integridade física de muitos deles.

Não há dúvidas que o nosso ensino atravessa uma grave crise. Crise de qualidade, crise de autoridade, crise de auto-estima, crise de indisciplina, etc. etc. etc.

Os alunos tiram cursos superiores e cometem erros clamorosos a vários níveis, a começar pela língua portuguesa: não sabem escrever, não conhecem as regras gramaticais, de acentuação e é comum ouvirem-se erros que, em tempos não muitos distantes, arrepiava os ouvidos de quem escutava. Hoje já temos os ouvidos tão arranhados por esses erros que já não estranhamos, lamentavelmente.

É, portanto, urgente, muito urgente, fazer alguma coisa para que as coisas mudem.

Restaurar a qualidade do ensino e restaurar também a consideração que é devida aos profissionais do ensino é uma tarefa absolutamente prioritária.

Não interessa agora procurar culpados porque culpados somos todos nós: os pais, porque não demos a correcta educação aos nossos filhos; muitos professores, porque alinharam no porreirismo das boas notas a alunos impreparados; alguns outros professores porque, não tendo vocação para o ensino, não tinha capacidade de transmissão de conhecimentos aos alunos; os governos, porque trataram de ultrapassar o problema do insucesso escolar nivelando por baixo, etc. etc. etc.

Chegados a esta situação, de que somos todos culpados, e não há que procurar bodes expiatórios, há que tomar medidas urgentes, sem que essas medidas possam significar o regresso a um passado de autoritarismo e de prepotência.

Há que procurar soluções adequadas à sociedade moderna em que o respeito e a disciplina são compatíveis com o regime democrático, sendo certo que a libertinagem, a falta de educação e a indisciplina são os maiores aliados dos defensores de medidas exclusivamente repressivas.

Numa época em que os poderes públicos estão propensos a instalar uma autêntica ditadura dos costumes, seria fácil, demagogicamente, impor medidas repressivas, a este e a outros níveis, a pretexto de que é melhor para todos. E não nos faltam exemplos por essa Europa fora, Portugal incluído.

O ensino está a ser vítima da sua própria democratização e talvez seja chegado o momento de colocar um pouco de equilíbrio no sector.

Um bom ensino é compatível com um bom ambiente nas escolas, onde os professores gostem de ensinar e os alunos cumpram a sua principal função que é aprender e desenvolver um conjunto de capacidades, físicas e intelectuais, que os prepare para enfrentar o mercado de trabalho que é cada vez mais exigente, seguindo uma trajectória oposta a muitos cursos.

Em tempos ainda não suficientemente longínquos, mas desconhecidos dos actuais alunos, era fácil ter uma escola organizada e o ensino podia ser de boa qualidade. Era fácil porque só alguns tinham a possibilidade de continuar na escola depois de concluído o primeiro ciclo.

Com a democratização do ensino, todos puderam ter acesso à escola e o nível médio cultural da população portuguesa subiu consideravelmente, ainda que possa haver uma perda que qualidade, tal foi a explosão escolar em tão poucos anos.

Sendo certo que não haverá soluções milagrosas, só com o esforço de todos será possível, à explosão quantitativa, fazer corresponder uma elevação qualitativa para que continue a subir o nível médio de formação da população portuguesa, mas sem uma descida da qualidade do ensino.

Afonso Paixão