Acabamos de comemorar o 39.º aniversário da revolução dos cravos. Para além da festa, sempre necessária, Abril foi sobretudo feito de luta pois a democracia e a liberdade estão em perigo. Todos os direitos que foram conquistados após o 25 de Abril de 1974 pela luta das camadas populares têm vindo a ser aniquilados. Hoje já pouco resta das nacionalizações dos setores básicos da economia ou dos direitos laborais, que têm vindo a ser reduzidos. O poder local democrático ficou ferido com a dita reforma administrativa. Portugal é objeto de um processo de intervenção estrangeira comandado pela dita Troika que não veio para ajudar, mas para rapinar, empobrecendo-nos. A dívida, o défice, o desemprego, as falências e os pobres aumentam todos os dias… e os «mercados» enriquecem na devida proporção todos os dias. Portugal transforma-se num protetorado sob a pata do novo imperialismo dos mercados financeiros e dos grandes banqueiros, cujas troikas nacional e europeia são os mais fieis e determinados executores políticos e a trupe de comentadores políticos, fazedores de opinião e meios de comunicação social nacionais os seus mais exímios publicistas e extraordinários vendedores da banha da cobra de que são bons exemplos a ideia da inevitabilidade do percurso ou a pérfida mentira e colossal intrujice de que se não fosse a intervenção estrangeira não haveria dinheiro para pagar os salários e pensões. Dizem isto mas não comprovam a afirmação. Mas dizem-no baseados no velho ditado de «uma mentira tantas vezes repetida passa a ser verdade». Mas é uma mentira. E eles mentem com um único intuito: empobrecer em mais de 30% o povo português engordando os grandes senhores do dinheiro e do capital financeiro. A história far-se-á sempre mais tarde mas garanto, não é a primeira vez que Portugal passa por semelhante. Hoje temos um conhecimento muito aproximado de todas as crises que assolaram o nosso país e nelas, os traidores foram sempre os senhores poderosos e os que os serviram. Assim foi com a Nobreza que tomou o partido de Castela contra Portugal na crise de 1383-85; assim foi com uma parte da mesma aristocracia do Miguel de Vasconcelos em 1640; a corte fugiu para o Brasil no início do seculo XIX aquando das invasões francesas; assim é hoje em que o poder do PSD e do CDS apenas nos quer tirar, tirar, tirar, para servir o capital financeiro externo.

Agora existem mais preocupações. Cavaco Silva decidiu tomar o partido do governo PSD/CDS, e numa «gaitada» monumental anunciou o fim da democracia, concluindo pela inutilidade de eleições. O PS não mudou. Seguro substitui Sócrates. Promete, promete e promete. Mas de facto deixará cair tudo no primeiro momento em que chegar ao poder. Aliás, há pouco tempo apresentou uma moção de censura ao governo, brandiu a necessidade de eleições e logo abandonou essa estratégia. Vai o PS alterar o que de mau fez este governo? Vai repor as indemnizações por despedimento? Vai repor os montantes e os prazos do subsídio de desemprego? Vai aumentar salários e pensões? Vai anular a extinção de freguesias? Vai recuperar integralmente o nosso estado social? Sobre isto nada diz, ou limita-se a palavras vãs. Pois o PS aceita a intervenção estrangeira, não se desvia dela e até já disse que chegava a acordo com qualquer um, até com o PSD e com o CDS. O que são capazes de fazer para enganar o povo. Está visto, estes três partidos até podem voltar novamente ganhar as eleições. Pode o eleitor ser novamente iludido com fortes embustes e deixar-se levar. Mas saberão os portugueses que, no essencial, pouco mudará na sua vida, seja o PSD ou o PS a comandar as tropas.

No entanto é urgente mudar de política. Para uma política de esquerda, já que de política direita vivemos há 37 anos. E é preciso ter muita lata, para dizerem que foram os erros cometidos nestes últimos 30 anos que nos conduziram a esta situação. No entanto a afirmação é verdadeira. Mas foram eles, eles, o que isto dizem, que estiveram a governar e não outros, portanto são eles os responsáveis, são eles os culpados – PSD, CDS e PS. Mas também é necessário dizer outra coisa. Se o povo não tivesse votado como votou, se tivesse dado mais força ao PCP e ao PEV, provavelmente não estaríamos na situação em que nos encontramos.

Passado Abril e com Maio em luta, fazemos votos para que haja uma alteração efetiva na correlação de forças a nível politico, que surja um reforço significativo das forças verdadeiramente de esquerda, sobretudo da CDU, condição imprescindível para a criação de um verdadeiro governo de esquerda que retome os valores e os ideais de Abril, indispensáveis a uma verdadeira democracia, a um desenvolvimento dos sectores produtivos nacionais compostos pelas pequenas e médias empresas, pelo sector cooperativo e pela nacionalização dos sectores estratégicos da economia, a uma reforma agrária e a uma politica agrícola de produção com boas vias de escoamento dos produtos e desenvolvimento das nossas pescas, ao regresso a politicas de emprego, fomentadas através de uma melhor e mais justa distribuição da riqueza produzida, ao crescimento da procura nacional e ao desenvolvimento do nosso povo com mais educação, cultura e saúde. Isto poderá levar anos a concretizar e haverá avanços e recuos. Mas só será possível pela política solidária e interventiva de uma verdadeira esquerda e com a participação de todos os cidadãos.

Sim, neste tempo de agravamento das injustiças, «versos brandos…ninguém mos peça agora».