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Nasceu na Monarquia, vive na República. Ultrapassou duas Guerras Mundiais e viu a democracia brotar em Portugal. Segunda-feira conseguiu a proeza de completar, orgulhosamente, um século de vida.

Com olhos azuis da cor do céu e cabelos brancos que são o testemunho do tempo, Dioguina da Conceição Moreira surpreende com uma lucidez “de se lhe tirar o chapéu”. “Acho que não merecia que me fizessem tanto”, contava ao NT/TrofaTv, ainda envolvida na timidez e surpresa ao ver toda a sua família reunida para comemorar o seu 100º aniversário. O palco da festa, esse, foi cedido pela ASCOR – Associação de Solidariedade Social do Coronado, onde uma das três filhas de Dioguina Moreira é voluntária.

Num convívio simples, mas bonito, a centenária não se deixou intimidar pelo microfone da TrofaTv e até cantou os versos antigos que só ela sabe de cor na memória que não a deixa ficar mal. Recordou os tempos em que a estação de caminho-de-ferro de S. Romão ainda não tinha luz e as dificuldades que passou, mas contornou-as com episódios que viveu com os netos. “Eu era muito pobrezinha, mas queria que eles andassem muito limpinhos, muito passadinhos e não queria que eles viessem para a rua sujos, se fosse preciso lavava na bacia e punha a secar no fogareiro e dizia ‘pega lá, já tens roupa lavada'”, contou.

A receita para a longevidade parece não ser complexa: levar uma vida de trabalho e de ajuda e amor ao próximo. Nascida em berços humildes e criada com os avós e tios, Dioguina Moreira mostrou, desde cedo, ser uma mulher determinada e sem medo de enfrentar obstáculos. Ainda jovem, na casa dos 20 anos, veio morar para S. Romão do Coronado, mesmo contra a vontade dos pais, avós e tios. Deixa para trás uma vida de dificuldades, mas encontrou sempre na família a sua vontade de vencer. “A família é muito unida, o que um tiver o outro também tem, se não tiver divide”, assegura.

Hoje, as três filhas, os seis netos e sete bisnetos são o seu maior orgulho. Lola Mariano é a filha mais velha de Dioguina e com 77 anos gaba-se de ver a mãe chegar aos 100 anos de vida. Sempre com “muito respeito de parte a parte”, Lola garante que a relação foi sempre “muito unida com todas as filhas”. “Ela está sempre acompanhada, nunca me separei da minha mãe”, asseverou ao NT/TrofaTv.

Ansiosa para que o dia do 100º aniversário da mãe chegasse, Conceição Gonçalves não escondeu a emoção ao ver este desejo tornado realidade. “Uma mulher de armas”, é assim que a filha mais nova vê Dioguina Moreira e as palavras falam por si: “É uma satisfação que não tem medida, foi aquela que me deu a vida e eu faço tudo por ela, porque além do amor que lhe tenho, tenho uma afeição muito grande por ela e jamais esquecerei as dificuldades por que passou por todas nós”. Na maior parte do seu tempo, Dioguina Moreira está entregue aos cuidados da filha mais nova que conta com a ajuda de uma empregada para garantir que nada falte à mãe. Mesmo com os problemas de saúde que a idade não perdoa à centenária, esta é uma tarefa fácil para Conceição Gonçalves. “Ela é muito pacífica e sossegada”, revelou. “Já me têm pedido para fazer voluntariado nos hospitais, mas o voluntariado maior que eu posso fazer neste momento é à minha mãe”, acrescentou.

Para além das três filhas, Dioguina Moreira viu também nascer os netos e bisnetos a quem transmitiu muito do seu conhecimento. Paula Rocha, 42 anos, é uma das netas que, desde pequena, aprendeu a fazer franjas de lenços com a avó. “Passei muitos bons momentos com ela, porque quando a minha mãe ia trabalhar era com ela que eu ficava. Há muitos ensinamentos na minha vida que eu sei e aprendi com ela, todas as netas sabem fazer os xailes como o da Amália, ela punha-nos à volta da mesa e mostrava-nos como aquilo se fazia”, recordou. E apesar de apenas possuir habilitações ao nível da segunda classe, Dioguina Moreira sabia ler e bem. Contava histórias aos netos, que hoje se recordam minuciosamente da infância erguida na companhia da avó.

E a própria parece não se esquecer de pequenos pormenores que fazem toda a diferença. “Tinha por vaidade que eles andassem melhor que os outros, éramos pobrezinhos e eu queria-lhes dar e não podia, mas quando arranjava qualquer coisa que pudesse fazer eu dava logo quatro saltos e ficava toda contente por ter para lhes dar”, recordou Dioguina Moreira. Para a neta Paula Rocha o segredo da vida longínqua foi “saber viver um dia de cada vez”. “É uma mulher lutadora e de fibra, que soube gerir os bons e os maus momentos”, considera.

Numa vida inteira dedicada ao trabalho, Dioguina Moreira encontrou lugar para os seus talentos que a filha do meio faz questão de dar a conhecer. “A minha mãe foi uma artesã na aldeia, fazia lindas franjas para os chamados lenços de merino e era ajudada pelas qualidades e habilidade que tinha”, confidenciou Edite Moreira, de 75 anos. Para além de se dedicar às linhas e às agulhas, Dioguina Moreira soube fazer outro uso das mesmas. Aprendeu a dar injecções e “deu muita injecção a muita gente”. “Eu admiro a minha mãe, porque ela com dificuldades fez uma casinha pequena, foi uma grande mulher dada à economia que fez para conseguir o seu terreno e o seu cantinho. Foi sempre muito asseada e educou as filhas da mesma maneira e isso é tudo de valorizar. ‘Ganhas 10, gastas 9’, é assim que ela ensinou e é assim que eu faço”, atestou Edite Moreira.

A vitalidade invejável da centenária contagia todos quantos a rodeiam e também aqueles que tiveram o privilégio de a conhecer. Guilherme Ramos, presidente da ASCOR, não hesitou em disponibilizar o espaço do Centro de Dia da associação para a merecida festa de Dioguina Moreira. “No início chegámos a ponderar convidar a senhora e os familiares para uma festa durante a tarde, mas depois foi possível chegar até aqui com este jantar. É uma enorme alegria uma instituição, jovem como é a ASCOR, disponibilizar as instalações e ter presente os seus colaboradores para participar num acontecimento desta natureza”, afirmou.

Também Joana Lima, presidente da autarquia trofense, marcou presença no jantar de aniversário de Dioguina Moreira e rendeu-se aos encantos desta bisavó. “É a prova de que as mulheres são resistentes e mesmo sendo um mulher de trabalho, como é o caso, conseguiu com esta lucidez, felicidade e família toda ao seu redor completar o 100º aniversário. É uma honra ter uma munícipe com 100 anos e acho que ela tem condições para abraçar a idade de 105, 110 anos pela sua capacidade e resistência”, referiu. A edil trofense aproveitou a ocasião para reforçar que a autarquia quer apostar nas políticas de apoio à terceira idade, adiantando que o trabalho a realizar nesta área será o de dar continuidade às iniciativas já em curso, seguindo-se “programas novos com um cunho diferente e a marca deste executivo”.