Aquando da leitura de um dos famosos folhetos anónimos que aparecem ao sabor das forças ocultas, ficava sempre intrigado, ingenuamente, com a quantidade de erros ortográficos presentes nos mesmos. Pensava eu: “joguem sujo mas sem erros grosseiros!” Em desabafo com pessoas próximas, uma alertou-me para a acção propositada do erro, de forma a ser entendido como escrito por alguém que não é um “doutor”; alguém genuinamente do povo (?). Uma velha dicotomia infelizmente ainda presente e válida.
Todos sabemos que o uso de folhetins e pasquins são prática corrente em política há décadas. A própria Trofa não escapa, tendo ao longo dos anos assistido à circulação de folhetins (propositadamente muito maus) e de pasquins (graficamente mais cuidados) lançados ao sabor de quem está no poder ou na oposição. Dentro deste espírito surge a biografia de Pedro Passos Coelho. Embora não a tenha lido, a leitura que tenho feito de alguns artigos parece ser o suficiente para confirmar algumas suspeitas e atar algumas linhas presentes na estratégia comunicacional de um partido como o PSD. Este mundo realmente não é para ingénuos e a construção de um mito e de um imaginário nunca foge do objectivo primordial. Esta biografia, por muito má que seja, não deixa de ser muito má propositadamente. Passos Coelho aparece como uma personagem renascida, uma construção de alguém que parece ter visto a luz a meio do percurso e vai daí, à boa maneira americana, sente-se quase um predestinado. Não pretendendo eu fazer juízo de valores, o passado boémio, as estadias prolongadas em casas de amigos, a nebulosa carreira profissional e contributiva desta vida do cidadão imperfeito chamado Pedro, deu lugar ao homem novo, ao homem que só que afinal só quer um lar num subúrbio com dois cães e uma almoçarada ao Domingo. E aqui entra a velha dicotomia acima referida, do homem da plebe, comum, capaz de umas cantorias, da classe média em oposição à elite, aos bem pensantes. Enfim, uma imagem criada quase em analogia com o país que vivia acima das suas possibilidades e que agora tem de bater a mão no peito e fazer o seu ajustamento económico, social e moral. Claro que a hagiografia desta enorme farsa parece ter praticamente omitido o barão Ângelo Correia ou o cleaner chamado Miguel Relvas, os criadores e financiadores desta personagem.
Destaque também para a forma como é abordada a vida privada e íntima. Cumprindo uma velha e saudável tradição, a comunicação social resguardou o problema de saúde da esposa do primeiro-ministro. Espanto quando esse mesmo drama fica exposto no meio de um objecto de propaganda política. Nunca se viu tamanha contradição entre privacidade pedida e vida propositadamente exposta.

(Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico, esperando também não ir preso)