atanagildolobo 

Um dia destes acordamos e deparamos, bem no centro de Guidões, com um alinhamento de cruzeiros novos, em granito, alisados pela maquinaria contemporânea, tentando imitar os antigos cruzeiros de 1735. São muitos. Cerca de cinco perfilados em paralelo à Rua 25 de Abril com mais um no fim desalinhado, no sentido descendente na direcção da rotunda.

Dois também orlados no sentido ascendente do Largo com um na retaguarda também desalinhado. Depois o cruzeiro oferecido por Manuel João Figueiredo foi transladado da Rua do Souto de Santa Bárbara também para o Largo.

Por fim, ao lado deste último, surge uma imitação tosca, mal amanhada, em granito moderno, pretendendo ser uma réplica do cruzeiro que em 1860 foi baptizado de cruzeiro paroquial e que fora oferecido pelo pároco Manuel Tomé dos Santos, cujo original tinha os seguintes dizeres: « FES O P.E MEL. TOME DOS ÇANTOS» e que agora, a cópia, reproduz alguns hieróglifos.

Como já tivemos ocasião de relatar seria bem melhor recuperar esse cruzeiro, mesmo que não ficasse em perfeitas condições. Preservaríamos o património, respeitaríamos a dádiva e daríamos um bom exemplo. Infelizmente o caminho seguido foi outro. No entanto continuam pertinentes e actuais as interrogações: Onde está o verdadeiro cruzeiro paroquial? Qual o seu estado? Vai ser recuperado? Vai ser devolvido ao seu local?

Sobre os novos pouco haverá a comentar. Independentemente de quem os colocou, de quem os financiou e de quem os elaborou, haverá quem goste e quem não goste. Parece ressaltar uma ideia, serão cruzeiros a mais. E, convenhamos.

Não têm o valor histórico-artístico dos alinhamentos de Carnac na Bretanha Francesa nem dos aglomerados de espigueiros no Soajo ou no Lindoso no nosso Minho profundo. Sendo hoje o centro da freguesia um centro exclusivamente urbano, elementos representativos de alguma rusticidade, embora não autênticos, conferem uma contradição ao centro, algo inusitado, uma amalgama insólita…Não sabemos, mas se a ideia foi de embelezar o centro da freguesia, não seria melhor uma escultura moderna no centro da rotunda executada em materiais e técnicas modernas, de inspiração e criação contemporâneas que reflectisse alguma das actividades características de Guidões de antanho.

A indústria das baetas ou a pirotecnia, por exemplo, ou até uma actividade mais recente, que retratasse uma homenagem ao trabalhador da construção cívil. A opção pelos cruzeiros a imitar os que foram esculpidos há 274 anos representa e configura uma míngua de ideias e imaginação, por um lado, e um sofrível anacronismo, por outro. Nem sempre os anacronismos são maus. No primeiro quartel do século XX, a música de Rachmaninov era anacrónica, isto é, na música, este compositor explorou até à exaustão uma escrita musical que todos os seus companheiros já haviam abandonado.

É que no Romantismo à poesia contemplativa de Chopin, Liszt acrescentara o brilhantismo e a grandiloquência, ingredientes fundamentais do concerto romântico. Rachmaninov insistiu na mesma receita, mas com um lirismo tal, de uma veia ternamente arrebatadora que fazem dele o compositor da mais maravilhosa música retrógrada de sempre. Mas este exemplo destoante não tem qualquer similitude com os novos cruzeiros do centro de Guidões. Estes não passam de um medíocre anacronismo…