Eduardo Moreira é dono de uma força tão rara como a doença que o acompanha desde os 15 meses de idade. Agora, com nove anos, sonha ser Presidente da República para ajudar as pessoas doentes e “mudar o mundo”. A 28 de fevereiro assinala-se o Dia das Doenças Raras, por isso fomos a S. Romão do Coronado conhecer a doença de Eduardo e descobrimos que raro é encontrar crianças como ele.

Eduardo é o segundo de dois filhos, mas veio para ser uma lição e uma fonte de inspiração para toda a família. Aos 15 meses, a mãe, Vera Martins, estranhou “a fraqueza, as pisaduras e o cansaço” de Eduardo. Numa das análises foi-lhe detetada leucemia. “Não se sentava, caía para o lado, mas mesmo assim o Eduardo enganava um bocadinho, porque estava sempre a rir-se, a brincar e comia na mesma”, descreveu Vera.
O transplante de medula óssea chegou aos dois anos de idade e aqui começavam os problemas que ainda hoje perseguem o pequeno Edu, como carinhosamente é chamado. Na sequência do transplante, Eduardo ficou com uma patologia chamada “doença do enxerto do hospedeiro”, o mesmo que dizer que tem uma bactéria no sangue que lhe afeta a imunidade dos órgãos, para a qual não há cura e, no caso do Eduardo, é uma doença crónica e difícil de controlar. Além disso, os pulmões também foram afetados com uma doença que fazem com que aos nove anos Eduardo pareça ter os pulmões de um idoso de 80 e o obriga a fazer da máquina do oxigénio a sua maior aliada. As tentativas para reduzir a medicação, que chega aos cinco compridos diários e três xaropes, não têm resultado, porque os sintomas fazem-se notar de imediato: “feridas no corpo, cansaço extremo e inchaço”.
“Ele viveu sempre assim. O Eduardo não sabe o que é brincar com crianças. Quando, às vezes, vai à escola, acha aquilo uma coisa fora do normal, os miúdos falam todos muito alto e ele nunca foi habituado a viver como criança”, descreveu a mãe.

“Eu quero morrer, porque tu estás a chorar por minha causa”

Vera diz ter “virado a vida de pernas para o ar” e deixou de trabalhar quando foi detetada esta patologia ao filho. Mas “há três anos” decidiu mudar o rumo da vida da família, porque “estava completamente deprimida e a deprimir o Eduardo”. “Havia muitas fases em que o Eduardo dizia: ‘Eu quero morrer, porque tu estás a chorar por minha causa. Eu não tenho culpa de ser assim. Tu não vais trabalhar, estás doente da cabeça por minha causa’”, detalhou. Agora, o pequeno Eduardo fica com o pai de manhã e com a mãe de tarde e tenta ter uma vida o mais normal possível, apenas com mais cuidados.
Coisas simples como ir ao cinema ou à praia eram impossíveis para esta família. “Vivíamos com o Eduardo sempre dentro de casa e dizíamos: ‘Isto não é vida para ele. Se de facto ele tem de viver um dia de cada vez, vamos vivê-lo à nossa maneira’”, afirmou a mãe, que, apesar dos “receios” que ainda tem, não quer “fechar o Eduardo a sete chaves”. “O ano passado fomos à praia um bocadinho. Não foi fácil por causa dos olhares, mas ele lida muito bem com essa parte”, frisou Vera Martins.
E onde está o pequeno Eduardo, não há lugar para tristeza. É literalmente um metro de gente, uma medida que atingiu recentemente e que o encheu de orgulho, mas tem uma força sem medida.
As idas ao Instituto Português de Oncologia (IPO) e ao Hospital de S. João, que considera uma segunda casa, são mais dolorosas para a mãe do que para Eduardo. Os tratamentos obrigam a várias picadelas e para Vera nunca é fácil ver o filho ser submetido à dor, mas o pequeno Edu não larga a boa disposição. Perante o sofrimento espelhado na cara da mãe, num dos tratamentos que fez há dias, Eduardo reagiu da forma mais inesperada e disse: “Mãe, eu pareço um queijo suíço todo furado”.
Há dois anos, Vera ouviu de uma médica aquilo que nenhuma mãe quer ouvir: “Era impossível o Eduardo conseguir sobreviver”. “Vim todo o caminho a chorar, ele não e ainda me dizia ‘mãe, é mais uma doença. Se tiver que ir, eu vou. Vamos viver, vamos brincar, vamos fazer tudo o que nós queremos, porque eu hoje estou aqui e amanhã posso não estar’. Isto deu-me força”, descreveu.
Eduardo contraria todas as estatísticas e acredita sempre em dias melhores. No outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos da América, há um tratamento que pode ajudar a combater a bactéria que o menino tem no sangue. Em Portugal, estão a estudar a possibilidade de Eduardo ser a primeira pessoa a experimentar o tratamento, que, posteriormente, poderá ajudar a melhorar o problema que tem nos pulmões. Não será o suficiente para que Eduardo fique totalmente recuperado, mas poderá ser uma grande ajuda para que tenha uma vida o mais normal possível.
Até lá, o menino do Coronado vai ensinando a família a “ver a vida de outra maneira”. O maior sonho de Vera é ver “o seu “menino especial” curado e “ completamente feliz”.

Pelos olhos do Eduardo…

“Bonito, sexy e gostoso”. É desta forma que Eduardo se vê quando se olha ao espelho. Aos nove anos, já tem o seu projeto de vida bem delineado. Sonha curar-se, “ter um cão, uma garina gostosa e vários filhos”. Mas, mais do que isso, quer ser Presidente da República para “por menos dias de trabalho, mais dinheiro, ajudar os doentes e os velhinhos e mudar o mundo”.
Enquanto o futuro não chega, Eduardo vai vivendo “um dia de cada vez e aproveita cada hora”. Não são precisos muitos minutos para percebermos que Eduardo é uma força da natureza. É frontal e não deixa nada por dizer. “Gostava de fazer parkour, para saltar e atravessar as paredes. Antes conseguia andar de bicicleta, agora não”, lamentou Eduardo, completando de imediato, “mas gosto de jogar e conversar com adultos, até demais, ver vídeos, comer e ir à casa de banho”, brincou.
Os problemas respiratórios impedem-no de fazer algo simples como jogar à bola, mas, mais uma vez, Eduardo contraria as regras e joga “como árbitro”, tornando-se dentro de campo um juiz exigente que prefere “o cartão vermelho”.
Dono de um sorriso e de uma energia contagiantes, quando o Eduardo não fala, desvendou a mãe, “é porque está com muitas dores”. Mas não se deixa levar pela débil situação. “Quando é para picar ponho o braço e já está. Da outra vez levei seis vacinas e custou mais à enfermeira do que a mim”, contou Eduardo.
As visitas ao IPO, uma ou duas vezes por mês, não são um entrave na vida deste menino, e, pelo que nos contou, são até um momento bem passado, porque lhe dão “frango, pizza e sandes de leitão”. “Sou muito bem tratado”, desvendou.
Eduardo diz que sempre teve “assim muita força”, desde que nasceu, mas não esquece o apoio “da mãe, do irmão e do pai”, que são “as pessoas mais importantes” da sua vida.
As saídas de casa têm que ser sempre cautelosas por causa dos vírus. “Eu não pego nada a ninguém, mas eles pegam-me a mim”, alertou. Eduardo tem sempre a companhia da sua máquina de oxigénio e precisa de ser ventilado para dormir bem e recarregar energia, “como um telemóvel”, exemplificou a mãe.
“Eu acho que olham para mim de lado, porque não se vê uma criança com os problemas que eu tenho, estranham quando veem um menino com uma coisa no nariz, ficam a olhar de lado, mas eu não ligo”, garantiu.
Não é possível transcrever para palavras a força de viver de um menino que, com apenas nove anos, trava há quase oito a mais dura batalha da sua vida. Sem pousar as armas, segue, diariamente, a sua luta. “Às vezes chorava por causa dos meus problemas, agora não. Tenho que ter e tenho (a doença), foi Deus que me deu, tenho que estar assim até me curar”, finalizou.
Eduardo passa a vida a fintar a doença e a contrariar as estatísticas. É alvo de vários estudos, tendo vindo uma equipa médica do Brasil para o conhecer. O que talvez ainda não se tenham apercebido é que o melhor tratamento deste menino é a força de viver.