Na sessão solene evocativa da elevação do concelho, o presidente da Câmara Municipal da Trofa afirmou que o progresso e qualidade de vida “continuam adiados” e defende um futuro com “políticas de proximidade” e de “recuperação da independência financeira”.

“Esperança” foi a palavra que Sérgio Humberto, presidente da Câmara Municipal da Trofa, quis transmitir na sessão solene do 15º aniversário do concelho. Perante Luís Marques Mendes, convidado de honra da cerimónia que, em 1998, encabeceou as negociações com os partidos que permitiram a aprovação da criação do município, na Assembleia da República.

No discurso, para além de fazer um balanço de 15 anos de independência administrativa, Sérgio Humberto criticou a anterior gestão autárquica, que há um mês e meio derrotou no sufrágio popular, e enunciou as decisões que tomou desde que tomou posse.

Para o autarca, apesar da existência de “uma taxa superior a 85 por cento” da “rede de saneamento”, das infraestruturas de “abastecimento de água”, da “piscina municipal”, da “Casa da Cultura” e do “melhoramento do parque escolar e algumas instalações municipais”, o progresso e a qualidade de vida da Trofa, um concelho “adolescente”, “continuam adiados”.

Na lista de fragilidades enunciadas estão “a deslocalização de empresas para concelhos vizinhos” e “o aumento do desemprego”, que representaram “perda de riqueza”, as acessibilidades que “continuam a ser muito más”, a inexistência dos Paços do Concelho e “as más condições de trabalho de boa parte dos trabalhadores municipais”, “o grave caso do Metro” e “a promessa constantemente adiada sobre as variantes às estradas nacionais”.

 

Postos de iluminação religados

“Apostar em verdadeiras políticas de proximidade” e “recuperar a independência financeira” foram as metas traçados pelo autarca para os próximos anos. O trabalho, referiu, já começou com o “corte nas despesas desnecessárias”. Sérgio Humberto referiu que, além da diminuição de “avenças”, a empresa municipal Trofáguas “vai passar a ter como único administrador remunerado um elemento interno, reduzindo a despesa com salários em mais de 20 mil euros anuais”.

Por outro lado, o edil trofense anunciou que a poupança de 25 mil euros obtida com a deslocalização da outra empresa municipal, a TrofaPark, será aplicada na religação dos postes de iluminação pública, que foram sendo desligados pelo anterior executivo camarário como forma de poupança. “Não se admite que existam ruas com toda a iluminação ligada e outras com boa parte desligada sem que se compreenda qual o critério”, asseverou. E acrescentou: “Prefiro trocar uma renda que nos custava 25 mil euros por idêntico acréscimo de valor, permitindo iluminar todas as ruas do concelho e acabar com as queixas, justas, de falta de segurança, designadamente envolventes das nossas escolas”. Sérgio Humberto referiu, depois aos jornalistas, que a medida demorará “cerca de três a quatro meses” a ser aplicada e que a operação de religação obrigará a “um encargo adicional”.

Em declarações à Lusa, Joana Lima, ex-presidente da Câmara e atual vereadora socialista, considerou esta medida de religar os postes de iluminação “demagógica”. “O que o meu executivo fez foi levar a cabo um programa de redução de custos que implicava desligar lâmpadas sim, lâmpadas não, na via pública, tendo em conta passadeiras de peões, entre outras situações. Portanto houve critério. Acho lamentável e profundamente demagógico que o novo presidente venha dizer que não havia critério nesta medida”, frisou.

A socialista sustentou ainda que a decisão de desligar foi tomada por vários municípios a nível nacional. “Esta medida da poupança de iluminação pública não foi inventada por mim, nem inventada na Trofa. O senhor presidente devia ter um discurso mais digno face à função que assume”, argumentou.

 

Marques Mendes quer autarcas a “apostar na competitividade e solidariedade”

É considerado o “Pai da Trofa” e esteve no concelho para festejar o 15º aniversário do município, depois de ter recusado o convite de apadrinhar a sessão solene há dois anos por “razões imperiosas”. Luís Marques Mendes, que em 1998 era líder parlamentar do PSD e conseguiu um entendimento com PCP e CDS-PP para a aprovação da criação do concelho, quis prestar “uma homenagem à população”, que criaram uma força “orientada por nenhum critério político e com sentimento muito genuíno”.

O histórico social-democrata, que agora não está na vida política, afirmou que, 15 anos depois, sente que “ainda há anseio e expectativa que não foram satisfeitos”, sugerindo que haja “mais ambição” na busca do progresso e, sobretudo, “com maior rapidez”. “Temos todos que fazer um esforço, cada um dentro das nossas convicções, para dialogar e estabelecer pontos de entendimento, para sermos capazes de unir e não dividir”, frisou.

Sobre o futuro, e numa reflexão generalizada a todo o país, Marques Mendes defendeu que o papel dos autarcas não estará voltado apenas para a concretização da obra, mas para “o desenvolvimento económico e promoção da justiça social”.

“O que as pessoas querem não é que os políticos percam tempo a saber de quem é a culpa ou a atirar responsabilidades, porque o que precisam é de ajuda e da solidariedade de todos nós”, sustentou.

 

Sérgio Humberto “não” está “preocupado” com possível fusão de municípios

O Governo aprovou, no final de outubro passado, o guião com orientações para a reforma do Estado, que prevê a “instituição, de preferência, com o máximo consenso interpartidário possível, de um processo de reforma dos municípios aberto e contínuo, que facilite e promova a sua agregação” e a preparação de “novo processo de transferência de competências da Administração Central para os municípios e as entidades intermunicipais”.

Esta tomada de posição, que pode constituir um “fantasma” para a população da Trofa, “não” deixa Sérgio Humberto “preocupado”, que afirmou ao NT que “a Trofa é um dos maiores concelhos do país”. “Não creio que será possível, porque a Trofa tem a sua identidade própria”, frisou.

Depois de o Governo apresentar o guião, o PSD já pediu um “estudo estratégico” sobre territórios de baixa densidade, pois considera que “há desequilíbrios muito significativos” no país, que colocam em causa o desenvolvimento do país, afirmo Marco António Costa, porta-voz do partido, em declarações ao JN. O CDS também reclamou ao ministro Miguel Poiares Maduro, que tutela o Desenvolvimento Regional, a elaboração de um documento para preparar a agregação dos municípios.

 

Obras dos parques “estão em risco”

As obras da requalificação dos parques Nossa Senhora das Dores e Dr. Lima Carneiro e o do Parque das Azenhas também foram referenciadas, para Sérgio Humberto admitir que as empreitadas “estão em risco de se perder”. “(As obras) transformaram-se num problema muito, mesmo muito grave, com os prazos de execução a terminar e as obras por acabar”, afiançou, referindo que, no caso dos parques da cidade, a data estipulada para a conclusão era 18 de novembro e que “apenas 12 por cento da obra está executada”.

Em caso de incumprimento, acrescentou, a autarquia vê-se a braços com um desfecho: “Devolver milhões de euros e ficarmos com as obras paradas. Isto é hipotecar o futuro do nosso concelho”.

Já em declarações aos jornalistas, no final da sessão solene, Sérgio Humberto afirmou que a autarquia já reuniu “com as duas empresas”, da requalificação urbana e Parque das Azenhas e que “já foram feitas prorrogações dos prazos, para o último dia deste mês e para dezembro”. “No passado, andou-se a empurrar o problema com a barriga”, afiançou o autarca, explicando que há o risco de os fundos comunitários poderem diminuir “de 85 para 50 por cento” ou “se não houver luz verde da CCDRN (Comissão de Coordenação de Desenvolvimento Regional do Norte) e da Secretaria de Estado”, a Câmara “terá de devolver todo o dinheiro” que recebeu do Quadro de Referência Estratégico Nacional (QREN).

Questionado sobre qual será a primeira obra de grande escala que desenvolverá, Sérgio Humberto afirmou que a autarquia “tem muitas que quer complementar”, mas “tem que arranjar dinheiro”, pois “o que vai receber em 2014 já tem destino” e “se não fizer cortes, a Câmara não pode fazer nenhuma obra”.