De uma maneira ou de outra, os quatro trofenses a quem demos espaço nesta edição, vivem, desde março, na linha da frente da luta contra a Covid-19. Uns bem perto, outro noutro país, são, a nosso ver, as vozes mais capazes de transmitir aos leitores aquilo que se está a passar dentro de um hospital, no interior das instituições ou nas habitações de muitos seniores, há muitos meses privados de verem ou abraçarem os entes queridos. Mas também são aqueles que melhor podem desconstruir a pandemia de desinformação que se propaga mais rápido que o próprio novo coronavírus e que, em muitos casos, pode ter implicações graves no esforço de quebrar as cadeias de transmissão da Covid-19, levando a que o trabalho destes verdadeiros “soldados” numa guerra pandémica seja prolongado, já para lá do que é, humanamente, possível.

Este espaço é um alerta para que todos nos mantenhamos comprometidos na luta contra a propagação do novo coronavírus e esse imperativo está vincado nos quatro testemunhos que recolhemos. E isso não é coincidência, é a confirmação de que é premente seguirmos as recomendações das autoridades de saúde.

Este espaço que lhes demos e que lhes dedicamos é também uma homenagem d’O Notícias da Trofa a todos os profissionais de saúde que, desde março, roubam horas ao descanso, às famílias, a eles próprios para salvar vidas. Os heróis têm rosto: estes quatro são disso exemplo.

Helena Moreira
Enfermeira do Serviço de Urgência da unidade de Vila Nova de Famalicão do Centro Hospitalar do Médio Ave, Linha SNS24 e Santa Casa da Misericórdia de Santo Tirso

“Pessoas jovens e saudáveis a morrer. Cada vez mais!”

“Conto-vos a minha experiência como enfermeira na linha da frente no combate à Covid-19, a realidade do que tenho visto tanto na urgência como na emergência todos os dias.
Digo-vos que venço todos os dias quando vou trabalhar e dou o melhor de mim, pois ser enfermeiro começa a ser uma vocação e não uma profissão.

Quando chego a casa, não quero falar (a coisa é grave quando eu não quero falar), a família pergunta como correu o dia e eu até para ouvir isto estou cansada, sem paciência, exausta…

As represálias começam a sentir-se. Corpo pesado e cansado de um fato leve que se torna chumbo ao fim de um turno de trabalho, olhos que querem fechar, marcas no rosto, mãos desidratadas e com pele descamativa, pernas inchadas. Mas o meu desânimo aumenta quando percebo que pessoas jovens na faixa etária dos 30-60 anos sem relevantes patologias de base, com vidas ativas, com poucos dias de sintomatologia, desenvolvem pneumonias extensas por Sars COV 2, ao quais se prevê agravamento nos dias seguintes e necessidade de administração de oxigénio e, nalguns deles, ventilação invasiva, seguramente. Pessoas jovens e saudáveis a morrer. Cada vez mais!

Para muita gente, não vai ficar tudo bem, muitos vão perder avós, tios, pais, filhos, amigos! E depois disto, nunca mais vamos ser os mesmos, por isso percebam que têm mesmo de cumprir todas as medidas impostas pela DGS! Fiquem em casa e saiam apenas para o que é essencial. Está na hora de mudarmos comportamentos e mentalidades, percebam que estamos perante um problema grave que nos afeta a todos, não estamos em tempo de qualquer tipo de ajuntamento.

Respeitem os meus, os vossos e a todos nós profissionais que saímos de casa para cuidar de quem necessita. Nós não podemos ficar em casa, temos de correr riscos, trabalhar e lutar todos os dias pelos melhores cuidados aos utentes. Estamos aqui para vocês, por favor, cuidem-se e respeitem todos!
Acabo com um agradecimento a todos que estamos no combate a este vírus. Estamos juntos para enfrentar esta guerra, onde os soldados somos nós, profissionais de saúde. Adoecemos e alguns morreram nesta luta, mas nunca fugimos dela. Seguimos juntos e com esperança!”