De uma maneira ou de outra, os quatro trofenses a quem demos espaço nesta edição, vivem, desde março, na linha da frente da luta contra a Covid-19. Uns bem perto, outro noutro país, são, a nosso ver, as vozes mais capazes de transmitir aos leitores aquilo que se está a passar dentro de um hospital, no interior das instituições ou nas habitações de muitos seniores, há muitos meses privados de verem ou abraçarem os entes queridos. Mas também são aqueles que melhor podem desconstruir a pandemia de desinformação que se propaga mais rápido que o próprio novo coronavírus e que, em muitos casos, pode ter implicações graves no esforço de quebrar as cadeias de transmissão da Covid-19, levando a que o trabalho destes verdadeiros “soldados” numa guerra pandémica seja prolongado, já para lá do que é, humanamente, possível.

Este espaço é um alerta para que todos nos mantenhamos comprometidos na luta contra a propagação do novo coronavírus e esse imperativo está vincado nos quatro testemunhos que recolhemos. E isso não é coincidência, é a confirmação de que é premente seguirmos as recomendações das autoridades de saúde.

Este espaço que lhes demos e que lhes dedicamos é também uma homenagem d’O Notícias da Trofa a todos os profissionais de saúde que, desde março, roubam horas ao descanso, às famílias, a eles próprios para salvar vidas. Os heróis têm rosto: estes quatro são disso exemplo.

Paulo Martins
Enfermeiro | Sócio-Gerente EPMED – Apoio Domiciliário Cuidamos dos seus, Todo o Ano

“A tristeza no rosto daqueles que querem ver os seus netos a crescer”

“A Covid-19 “entrou” nas nossas vidas sem ninguém contar. No início, ninguém sabia o que era a doença, como se proteger, quais as medidas a adotar. No entanto, com o passar do tempo, pequenas dúvidas foram colmatadas, mas ainda há muito por descobrir e muito mais para aprender sobre este vírus.

Com o aparecimento da Covid-19 as pessoas ficaram assustadas. Pude comprovar que as famílias optaram por declinar os cuidados de saúde não essenciais/não urgentes (reabilitação motora), solicitando assistência apenas para os cuidados de saúde básicos, tais como cuidados de higiene, acompanhamento diário, análises clínicas, procedimentos invasivos de Enfermagem. Senti que as pessoas estavam com medo de serem contaminadas. Adotei, desde cedo, medidas preventivas para a prestação de cuidados, implementando na minha equipa a utilização obrigatória de equipamentos de proteção individual (EPI’s).

Senti que as famílias confiavam no nosso trabalho e que viam em nós uma solução para ajudar os seus familiares mais frágeis. Observou-se um aumento de solicitações nas áreas mais rurais, porque as pessoas preferiram evitar enviar os seus familiares para os hospitais ou para Estruturas Residenciais Para Idosos (ERPI).

A nível pessoal foi difícil. O contacto pessoal e afetivo quase diário com os meus pais praticamente deixou de existir, passando a contactar-nos quase sempre virtualmente. Ainda atualmente não sei o que é um abraço dos meus pais. Quando chego a casa deixo a roupa toda no exterior num saco à parte para lavar separadamente e só após tomar banho é que cumprimento a minha esposa.

Esta pandemia veio afetar psicologicamente os mais idosos. Não há palavras para descrever a tristeza no rosto daqueles que querem ver os seus netos a crescer, testemunhar as conquistas dos seus filhos e lhes vêm esses momentos negados. Aí pude desempenhar um papel crucial, que muito me vai marcando – o poder ajudar a estabelecer contacto por telefone ou vídeo-chamada entre os familiares e o seu ente querido isolado. Não há palavras que descrevam a emoção destes contactos. Por isso, deixo aqui o meu apelo, nunca demais repetido: Protejam-se! Usem máscara, evitem os contactos próximos e lavem e desinfetem sempre as mãos após tocarem em qualquer superfície que desconheçam. Por vocês, por nós, por Todos!”