Nuno Silva é da Trofa e o responsável pela equipa que desenvolve o veículo que vai procurar vestígios de vida em Marte.

É natural da Maganha, Santiago de Bougado, mas o seu nome anda “nas bocas do Mundo”. Isto porque Nuno Silva é o responsável pela equipa que desenvolve a navegação e o controlo de um veículo, que tem como missão investigar a geologia de Marte e procurar provas de que existiu ou existe vida neste planeta: o ExoMars Rover.

Este engenheiro de 32 anos é da Trofa, mas há muito que alargou fronteiras. Começou por viajar para Lisboa, em 1996, onde entrou no Curso de Engenharia Aeroespacial. Sempre apaixonado por grandes desafios, Nuno Silva aventurou-se no programa Erasmus e concluiu a licenciatura em Toulouse (França). “Sempre me interessei por ciência em geral, por ser o meio para responder às perguntas que todos nós temos. O gosto por esta área vem pelo facto de o conhecimento ser menor e em que os desafios são maiores. Ainda sabemos muito pouco sobre os planetas à nossa volta e ainda menos sobre o resto do universo. E sou engenheiro, não físico, sobretudo porque gosto de resolver problemas e em áreas que permitam uma concretização relativamente rápida e prática”, frisou em entrevista ao NT.

Seguiu-se um estágio de seis meses em Les Mureaux (perto de Paris), na atual EADS Astrim Space Transportation, onde teve como trabalho o melhoramento dos modelos de previsão da performance do foguetão “Ariane 5”, ou seja, incluir um modelo mais detalhado dos dois foguetes laterais (os chamados “Étage à Propulsion Solide”). No final do estágio foi convidado a ficar e assim o fez até 2007, altura que ficou concluído o “Automated Transfer Vehicle” (ATV).Trata-se, segundo Nuno Silva, do “veículo mais complexo que alguma vez foi desenvolvido na Europa” e a sua missão é “re-orbitar a estação espacial internacional, abastecendo-a de combustível, água e víveres para os astronautas”. Finda essa função (dura cerca de meio ano), transforma-se como “caixote do lixo” e “desintegra-se ao reentrar na atmosfera”. Este veículo tem 20 toneladas e é “o único no Mundo capaz de fazer um ‘rendez-vous’ (atracar) de forma completamente automática no espaço”.

 

Trabalhar num veículo que vai estar em Marte

Seguiu-se um novo desafio: em 2008, passou para a EADS Astrium Satellites para se tornar o responsável pela equipa que desenvolve o ExoMars Rover, o veículo que vai procurar vestígios de vida em Marte.

Este veículo está equipado com “câmaras estéreo com 12 filtros, cada um com comprimento de onda diferente, para detetar os constituintes da superfície do planeta e fazer um modelo 3D muito detalhado da superfície” e outra “câmara, de alta resolução, para se poder ver, com elevado detalhe, pequenas zonas de interesse”.

Fazem parte da sua constituição um “sonar, que vai determinar a estrutura do subsolo, uma máquina de furar até dois metros de profundidade”, que vai permitir “retirar amostras conservadas durante muito tempo pelas camadas superiores” e analisá-las.

Nuno Silva tem em mãos uma função importante que é “dotar o Rover de mobilidade autónoma em Marte”. Ou seja: “O centro de controlo dá as coordenadas do local em Marte e o Rover, de forma autónoma, alcança-o com elevada precisão”. Este fator ganha um peculiar relevo, já que, antes, cada fragmento de informação era enviado de forma separada o que atrasava a sua deslocação que poderia durar dias.

Para a sua mobilidade existem “dois elementos de alto nível” e de extrema importância. Para além de estar dotado com seis rodas, o Rover terá um “cérebro” (chamado GNC), que determina “onde o veículo estará, o percurso e quais os comandos a enviar aos motores”. Tudo tem que estar “com grande precisão”, porque tempo é coisa que os investigadores não têm em Marte: “Há tempestades muito fortes de areia e as missões estão, geralmente, limitadas à estação onde esse risco é mínimo”. O lançamento do ExoMars Rover está previsto para março de 2018.

Este é o projeto profissional “mais importante” para Nuno Silva: “Já dediquei três anos e meio de forma muito intensa a este projeto e corresponde completamente ao tipo de desafios que procuro. Explorar um novo planeta de forma tão interativa como a que um Rover permite é muito interessante. Além disso, como com o ATV, é uma das raras missões no espaço em que podemos ver o próprio veículo a funcionar depois do lançamento – é algo muito importante quando se dedicam dez anos ou mais a um projeto – não esqueçamos que por vezes não funcionam e isto é um enorme risco porque poderá parecer inútil todo o trabalho e dedicação”.

 

Monitorizar as cheias na Austrália e estudar o Sol

 

E se ainda não bastassem todas estas ocupações, Nuno Silva ainda faz “o interface entre o cliente (a Agência Especial Europeia) e as empresas contratadas” e trabalha no sucessor do ExoMars: o Fetch Rover.

Começou também a trabalhar no Garada, um “projeto de voo em formação para monitorizar as cheias na Austrália e Nova Zelândia”. “Serão cerca de 48 satélites voando todosem torno uns aos outros de forma coordenada”, explicou.

Mas parece não haver limites para Nuno Silva: este engenheiro está a trabalhar na área FDIR (Failure, Detection, Isolation and Recovery), que consiste na detecção de falhas, isolar e recuperar o Solar Orbiter, uma sonda que vai orbitar em torno do Sol mais perto do que nunca. “A missão é estudar o Sol com cerca de dez instrumentos diferentes e compreender inúmeros fenómenos que não foram ainda explicados”, adiantou.

Nuno Silva não está obcecado por viajar no espaço, apesar de não esconder o interesse em “conhecer novas realidades”. “É evidente que o espaço seria todo um novo mundo, mas ainda tenho muito para conhecer antes de precisar de mudar de planeta”, afiançou.

Relativamente à conjuntura e à atual situação do País, Nuno Silva gostava que houvesse “uma modernização do setor produtivo” nacional e que a educação “fosse cada vez melhor, mais exigente e abrangente”, pois “só assim se pode ter empreendedorismo”.

 

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