A chuva ameaçou durante a semana, mas S. Pedro acabou por dar uma ajudinha e o dia de domingo nasceu com um sol que convidava ao cumprimento da tradição de S. Gonçalo.

A pé, de bicicleta ou a cavalo, muitos foram os que quiseram ir à festa e a verdade é que no domingo todos os caminhos foram dar a Covelas.

Muitos preferiram ir pela estrada, mas nem a chuva, que tornou complicada a travessia pela floresta, afastou os mais aventureiros, porque no final de contas, a recompensa era apetecível. As duas rodas foram a maioria e vinham de todo o lado. À porta da tasquinha, Miguel Vilela, presidente do Afim de BTT, levou um grupo de 15 ciclistas, que percorreram 20 quilómetros até ao destino, “o vinho e o rojãozinho”. Porque a fé move montanhas, mas o rojão bem regado arrasta multidões.

O Clube de Cicloturismo da Trofa também não deixou de fazer o percurso, mas a falta de treino traiu José Silva, presidente da associação, que confirmou a dificuldade da experiência: “Ultimamente não tenho treinado muito e quem não treina depois paga a factura”.

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No entanto, o presidente da colectividade, que levou “meia dúzia” de ciclistas, valorizou esta tradição “que possibilita o encontro de vários grupos” e serviu de inspiração para a organização de um passeio com mais elementos, no futuro.

No que toca às vendas, a tradição já não é o que era. Os doces de gema e os bolinhos do amor saltavam à vista e eram os anfitriões das tendas que se multiplicavam pela rua que circunda a capela, mas Maria de Jesus Faria, proprietária do Doce Mãe, foi peremptória: “Isto está muito alterado. Antes isto ainda era em terra e não se viam tantas tendas como agora. O movimento de pessoas é igual só que não há poder de compra. Em vez de comprar meio quilo compram 250 gramas”.

Artur Pinto é um dos exemplos e, juntamente com os amigos, formou um grupo que todos os anos cumpre o ritual de “amarrar o santo”. “Como há um pouco de exploração nos estabelecimentos combinamos trazer tudo de casa e amarramos o santo. Enquanto o padre diz a missa, nós estamos aqui a confraternizar um bocadinho e depois vamos para casa”, explicou.

No meio da população a boa disposição era notória e até as individualidades, que não quiseram trair a tradição, se renderam ao conforto das sapatilhas. José Sá, presidente da Junta de Freguesia de S. Martinho de Bougado, “quebrou o protocolo” e deixou os sapatos em casa para poder “resistir a uma viagem longa” a pé até ao S. Gonçalo. O autarca é um dos que, religiosamente, cumpre a tradição “há já muitos anos” e considera que ela “mantém-se viva e cada vez mais movimentada, como se pode verificar pelos ciclistas e o desfile dos cavalos”.

Os escuteiros também faziam parte do grupo de romeiros que fizeram o percurso pelo caminho tradicional. De acordo com Carlos Barbosa, chefe do agrupamento 94 da Trofa, secção de S. Martinho de Bougado, cerca de 60 elementos cumpriram a metodologia escutista de mais uma caminhada e vieram até ao S. Gonçalo. E para além disso, uma das razões para abraçar a tradição é o encontro “com pessoas que passamos muito tempo sem encontrar com uma disposição e um contexto diferente com muita alegria, o que é óptimo”.

E num dia em que a fé enchia o coração dos trofenses, até a claque do clube da cidade quis pedir uma ajudinha a S. Gonçalo. Apesar de cumprida a caminhada, o Trofense acabou por não conseguir seguir em frente na Taça da Liga, mas a par dessa tristeza fica a lembrança de uma manhã bem passada em Covelas.

Na imensidão de ciclistas que pedalavam pelo recinto das festas, alguns envergavam a camisola da Juventude Socialista da Trofa. A força partidária quis ser fiel à tradição de S. Gonçalo e mobilizou, de acordo com o presidente Marco Ferreira, “muitos jovens, oriundos de várias freguesias do concelho”.

Por terem chegado a Covelas pelo caminho tradicional, o responsável aproveitou ainda para ressalvar a importância “da construção de uma eco-via que ligue o centro da Trofa a Covelas, conforme o que está descrito no programa político da JS”.

José Santos, jovem socialista de Covelas e um dos responsáveis pela organização da iniciativa, estava visivelmente satisfeito: “Todos os jovens foram equipados a rigor com camisolas oferecidas pela empresa Savinor e o lanche para os participantes foi cedido gentilmente por um anónimo. Foi uma iniciativa muito bonita e que nos enche de orgulho”, afirmou.

A Confraria do Cavalo manteve a tradição da romaria a S. Gonçalo e juntou mais de 150 cavalos e cavaleiros, o dobro do ano passado. No entanto, o percurso foi alterado e, em vez de ser pelo monte, foi feito pela estrada de alcatrão.