26 de Abril de 2008, 10,30 horas. Depois das compras feitas num dos supermercados da região, retiro-me por um dos corredores de acesso. Pela frente aparece-me o Sr. José Carlos.

   Um associado do sindicato onde trabalho na área jurídico-laboral. Foi despedido em princípios de 2003 pela sua entidade empregadora ao fim de 20 anos de trabalho, com alegada justa causa. Os ventos foram de feição e fez-se justiça. O Sr. José Carlos ganhou o processo, da primeira à última instância.

Quando decorria o julgamento do recurso de revista no supremo tribunal de justiça, a sua entidade empregadora voltou a despedi-lo, agora por pretensa extinção do seu posto de trabalho. Decorria o mês de Agosto de 2005. Voltou-se ao início. Mais um julgamento, mais recursos… Há alguns meses atrás, com mais alguns ventos de feição, lá foi reintegrado o Sr. José Carlos, ao fim de quase 5 anos de árdua batalha. No passado dia 26 de Abril encontramo-nos e iluminou-se o seu sorriso de homem vivido nos seus quase 60 anos: " Sabe Dr…. (preferia que me chamasse amigo ou camarada, mas são os hábitos desta sociedade capitalista)…no dia 24 fui ao jantar do 25 de Abril ". Perante o meu contentamento, continuou: "…mudei muito, agora sou da esquerda. Lembro-me muito das suas conversas…do que passei, dos apoios que tive…Só com o 25 de Abril e os seus ideais, viveremos melhor." Como se os olhos me enevoassem de lágrimas, dei-lhe um abraço fraterno e disse-lhe: " Força amigo José Carlos, vamos à luta". Mais alguma conversa de circunstância e despedimo-nos com um aperto de mão forte e solidário. Retiro-me. Ainda sensibilizado, envolvo-me nos meus pensamentos. Aqui fez-se justiça. Mas quantos poderão dizer o mesmo? Não fora o 25 de Abril e as suas conquistas e seriam permitidos os despedimentos de forma discricionária. Recordei então os dias anteriores. A festa da revolução na Trofa, promovida e realizada unitariamente, bem orientada pelo meu camarada Vítor Augusto. O caloroso jantar convívio em Guidões no restaurante Félix, fruto da organização local do PCP, com a participação de mais de uma centena de homens, mulheres e jovens meus conterrâneos.

Os nosso cantares efusivos das músicas e canções que nos dão a força de resistir e o alento para prosseguir. Subitamente um sobressalto: apesar disso, em Portugal, a Democracia ainda é débil e o Desenvolvimento uma miragem. Prova-o, por exemplo, casos como este: no programa " Prós e Contras " da RTP 1 de 21 de Janeiro, Pedro Jorge, trabalhador da Cerâmica Torreense e dirigente sindical disse que não era aumentado desde 2003. Face a estas declarações, a entidade patronal levantou-lhe um processo disciplinar com intenção de despedimento, alegando perdas de contratos e prejuízos na imagem da empresa. Como se pode falar em democracia e liberdade quando a parte mais fraca, o trabalhador dependente, vive sob a constante ameaça de ser despedido? Como evocar a democracia e a liberdade quando a parte mais fraca mantém apenas um vínculo precário através de um contrato a prazo, de um contrato de trabalho temporário ou de falsos recibos verdes?

Hoje, fruto das diferentes e sucessivas politicas de direita que nos governam há mais de 30 anos, sejam elas do PS, do PSD ou do PSD/PP, encontramo-nos com os mais elevados níveis de desigualdade na repartição da riqueza da União Europeia; com cerca de dois milhões de pobres que sobrevivem com um rendimento mensal inferior a 366 euros. O endividamento das famílias passou de 110% do rendimento disponível para 124% constituindo um factor de asfixia e dependência de milhões de portugueses face à banca; as cem maiores fortunas representam ¼ da riqueza nacional; regista-se uma redução do consumo interno em resultado da degradação do valor dos salários, reformas e pensões, da política de substituição da produção nacional por produção estrangeira e desmantelamento do nosso aparelho produtivo; a taxa de desemprego, passou de 6,7% em 2004 para 8% em 2007, atingindo em termos reais cerca 600 mil trabalhadores; a precariedade atinge hoje um em cada quatro trabalhadores; a ameaça de revisão do Código de Trabalho – consagrando despedimentos arbitrários, alargamento do horário de trabalho, fim da contratação colectiva, diminuição das remunerações, generalização da precariedade, ataque aos sindicatos -, a concretizar-se, representaria uma ruptura com os direitos laborais vertidos na Constituição de Abril e um profundo retrocesso nas relações de trabalho.

O PCP afirma-se, no campo político, como o mais sólido e duro baluarte da resistência a estas políticas. Sem essa oposição, já o povo e os trabalhadores estariam em pior situação. No entanto, é possível dar a volta. O PCP é projecto de mudança, de verdadeira alternativa, no caminho da democracia e do desenvolvimento, na construção da sociedade socialista, livre da exploração do homem pelo homem, da sociedade generosa, rompendo as grilhetas de toda e qualquer opressão, de uma democracia politica, social, económica e cultural, como se encontra plasmada na Constituição da República Portuguesa. A nossa "cidade" é outra. O caminho para lá chegar vai no sentido inverso ao que vem sendo seguido. Não somos números e o planeta não é a bolsa de valores. O planeta azul é o cadinho celeste que nos resta. E é lá que fica a nossa cidade: Grândola Vila Morena. É lá que está guardado o nosso tesouro: o povo é quem mais ordena. O nosso segredo: em cada rosto igualdade. O nosso alimento: Grândola tua vontade. A nossa bandeira: Terra da fraternidade.

 

Atanagildo Lobo.