Eu tenho um sonho. Não é um sonho impossível, é certo, mas, devido a certas e determinadas limitações, ainda não é exequível. Esse sonho passa por adquirir um terreno em Covelas, que nem precisa de ser muito grande, onde construiria uma pequena casa com árvores de fruto, uma horta e animais. Uma casa no campo, a dois passos do centro do concelho e da cidade do Porto, onde viveria em sossego, em contacto com a natureza e onde o meu filho poderá correr e sujar-se, e eu poderia ter o meu próprio tasco, por altura do São Gonçalo. Materialmente falando, este é o único sonho que tenho, e que espero vir a concretizar.

Lamentavelmente, o meu sonho foi recentemente colocado em causa, devido a uma das principais causas de retrocesso neste país: a nossa classe política. Por algum motivo, ao qual ainda sou alheio, o executivo camarário andou durante cerca de dois anos a negociar a instalação de um aterro sanitário na freguesia de Covelas, nas costas de todos os trofenses, entre os quais se inclui o presidente da junta, Feliciano Castro, bem como os restantes membros do executivo e eleitos por Covelas, a larga maioria dos quais militantes dos partidos que governam a Trofa. Nenhum foi tido nem achado e, a julgar pela conduta do executivo neste processo, pudessem eles e ainda continuaríamos todos na ignorância, enquanto a negociação seguia nas nossas costas.

O executivo, bem como a sua claque nas redes sociais, tentou imediatamente virar o bico ao prego, assim que as suas intenções foram conhecidas. E as suas intenções são claras: trazer o aterro sanitário para o concelho, instalá-lo em Covelas e beneficiar das contrapartidas que andou a negociar nas costas dos trofenses durante mais de dois anos. No áudio que circula nas redes sociais desde Domingo, referente à reunião entre o executivo e os eleitos por Covelas, a 21 de Maio, a intenção do presidente Sérgio Humberto (SH) é clara como a água, quando diz que “a Resinorte tem interesse, o Município da Trofa também tem interesse”. Pena que o autarca confunda a sua vontade, e a dos seus quatro companheiros do executivo, com a do município. Seria mais correcto dizer que “o executivo também tem interesse”. Porque o município somos todos e eu estou absolutamente certo de que a esmagadora maioria dos trofenses não tem interesse na vinda de um aterro sanitário para o nosso concelho.

Se a vinda do aterro, como refere SH, se justifica com o abater de uma dívida à Resinorte, então a alternativa passará por encontrar mecanismos de gestão que permitam encontrar uma alternativa para o pagamento dessa dívida. Para quem tanto gosta de pavonear o (alegado) milagre financeiro, estou certo de que não será difícil encontrar essa solução. É, aliás, para isso que lhes pagamos os salários principescos que auferem, e que, de outra maneira, nunca receberiam: para trabalhar e encontrar soluções.

No entanto, no já referido áudio, SH assemelha-se mais a um comercial da Resinorte do que a presidente da CM da Trofa, tal é a forma apaixonada como defende a vinda de um depósito de lixo para o concelho que governa, dedicando-se, com o afinco de um político em campanha eleitoral, a desvalorizar os impactos negativos da instalação do aterro. Seja porque “não tem impacto na população, zero!”, o que é mentira, seja porque “não tem impacto para as linhas de água”, o que também é mentira, SH socorreu-se de todas as artimanhas ao seu alcance para tentar convencer os eleitos por Covelas a embarcar no sonho de ter uma fábrica de maus cheiros, ratos, gaivotas, baratas, solos e linhas de água contaminadas ao lado de suas casas. E, perante a resistência de alguns dos presentes, a hostilidade e autoritarismo com que os tratou, diz tudo sobre a postura de alguém que, em jeito de remate, chega mesmo a afirmar que “voltava a fazer a mesma coisa”. SH pode fazer quantos comunicados quiser, despejar camiões TIR de areia nos nossos olhos ou fazer-se de vítima nas redes sociais, mas a sua intenção inicial é clara e não deixa margem para dúvidas: SH quer um aterro sanitário na Trofa. E só recuou porque foi apanhado.