O café cultural SMED Museu, na zona industrial do Soeiro, em S. Mamede do Coronado, recebeu um concerto com bandas conotadas à ideologia neonazi. Associação SMED Quebra Sentidos garante que não foi a organizadora do evento e que este “não teve cariz político”.

Foi envolto em polémica o concerto que o espaço da associação SMED – Quebra Sentidos Associação Cultural, de S. Mamede do Coronado, recebeu no sábado. Intitulado “White Summer” (Verão Branco), o cartaz do evento musical era composto por quatro bandas com conotação neonazi: duas portuguesas (Legião Lusitana e Gatilho), uma francesa (Brutal Begude) e uma britânica (Ken & Brad, dos Brutal Attack).

O concerto foi organizado num clima de secretismo – no cartaz apenas se sabia que o evento se realizaria na “região do Porto” – nem a SMED o divulgou. As imediações do SMED Museu, na Zona Industrial do Soeiro, em S. Mamede, tiveram atenção redobrada de forças de autoridade, nomeadamente das secretas. A Guarda Nacional Republicana (GNR) também esteve no local mas numa normal ação de patrulhamento, como acontece diariamente, revelou ao NT fonte da GNR.

Segundo a associação, que preferiu responder às questões do NT em nome “coletivo”, o evento “não foi organizado pela SMED Quebra Sentidos”, mas por “uma banda” que “contactou” a associação, que foi alheia a “todo o trabalho de escolha do cartaz, divulgação e cobertura”. “Apenas nos competia a cedência do espaço. Já por algumas vezes utilizamos este modelo de cedência do espaço e organização a outras pessoas, à semelhança do que acontece em outros espaços, o que nos permite basicamente rentabilizar o espaço”, revelaram.

Os responsáveis da SMED garantiram que o evento “não teve cariz político”, porque “não houve palestras, comícios ou angariações de qualquer tipo”, mas salvaguardaram que “não é novidade nenhuma que todas as bandas têm mensagens, toquem rock, punk, pop, com maior ou menor inclinação social, política, religiosa”.

As críticas que recebeu e que tomaram maiores proporções nas redes sociais, a SMED apelida de “burburinho” promovido “por um grupo de pessoas ‘anónimas’ que se apresentam com perfis falsos e que tiveram como objetivo prejudicar e destruir a associação, muito mais do que boicotar as alegadas ideologias e alegados atores”.

A associação referiu que “existiu um maior policiamento da zona através da passagem de veículos das autoridades nas imediações do espaço”, refutando que tenha existido abordagem, uma vez que “não existiu qualquer incidente, nem no café cultural nem nas imediações, ao contrário do que foi veiculado em alguma imprensa e nas redes sociais”.

Questionada pelo NT, a coletividade não revelou qual das bandas fez o contacto para a realização do evento, assim como não confirmou se, no passado, o SMED Museu já tinha recebido alguma das bandas. No entanto, a agenda cultural de fevereiro, divulgada pela associação na página de Facebook, continha um concerto dos Legião Lusitana.

SMED criada para oferecer “cultura alternativa”

A SMED Quebra Sentidos foi criada depois de um grupo de jovens ter organizado o festival “SMED Fest”, em novembro de 2011. Com os fundos angariados deste espetáculo de música e artes modernas, os organizadores decidiram criar uma associação para continuar a realizar outros eventos do género. O SMED Fest já teve três edições e, entretanto, a coletividade criou um café cultural, o SMED Museu, que semanalmente recebe concertos de vários estilos musicais, desde pop ao rock, passando pelo jazz e música popular (como no arraial de S. João) tendo já recebido bandas de referência como Peixe:Avião, O Bisonte e Anarchiks.

Também promove e associa-se a iniciativas solidárias como é exemplo a próxima, que decorre nas noites de sexta e sábado, 11 e 12 de julho. O evento “Ajude-me a Ajudar a Índia”, com concertos e exposições que revertem para a viagem voluntária da estudante de medicina, Rita Azevedo, em agosto.