A paixão com que Nuno Silva fala de todos os projetos em que esteve ou está envolvido é quase contagiante. Este trofense que, desde há muitos anos, está envolvido em importantes projetos de exploração espacial, viu, recentemente, um deles dar ao Mundo imagens nunca vistas do Sol.

O Solar Orbiter foi lançado em fevereiro, depois de um longo caminho de desenvolvimento, grande parte dele também palmilhado por Nuno Silva, envolvido neste projeto por três vezes.

Em entrevista ao NT, o engenheiro revelou que, para ele, “o dia mais importante” da missão nem foi aquele em que foi possível ver o satélite enviar imagens do Sol. Estando intimamente ligado à aviónica do satélite – sistemas elétricos, sensores, software de bordo, painéis solares, etc -, o período mais importante para o engenheiro foi o dia do lançamento e as primeira semanas. Atestados o comportamento do satélite no Espaço e a forma como conseguiu “tratar de si próprio”, o trabalho de Nuno Silva “é dado, quase, como terminado”.

O Solar Orbiter está habilitado para estar a uma distância do astro nunca antes conseguida: a 0,28 unidades astronómicas, mais perto do que Mercúrio, que está a 0,3. A Terra está a uma unidade astronómica. Mas, há mais uma característica que faz deste Solar Orbiter especial, e por isso um projeto “muito complexo”, que é a “dualidade de extremos”. “Ele vai muito perto do sol, onde está muito quente, mas também vai muito longe, onde está muito frio”, explicou. E por isso, tem com ele equipamentos, milimetricamente desenvolvidos, como painéis solares gigantes que absorvem energia solar para o abastecer em distâncias longínquas do sol e um escudo térmico de titânio, que protege o corpo do satélite quando este está perto da estrela.

Uma vez operacional, o satélite começa a “fazer ciência” e a recolher, então, os dados e as imagens do sol, que permitirão perceber alguns fenómenos relacionados com esta estrela. Por exemplo, numa “erupção solar”, será possível “relacionar” o que “se vê a acontecer no local com o que aconteceu no sol segundos antes”. Além disso, há outros equipamentos que permitem, entre outras coisas, “caracterizar o ambiente espacial” perto do astro, como “medir o campo magnético”.

Mas para que o Solar Orbiter pudesse estar, neste momento, a ter uma performance que tem dado que falar nos últimos dias, foram precisos anos de trabalho e muita dedicação.

Quis o destino – ou o mérito – que Nuno Silva fosse chamado, por três vezes, para se envolver no processo. Na última vez, em maio de 2019, calhou-lhe uma missão quase “hérculea”, mas que, com a contribuição de uma equipa com dezenas de pessoas e a “compreensão” da Agência Espacial Europeia, foi possível concretizar. “O lançamento foi em fevereiro deste ano, mas o satélite tinha de ser enviado em finais de outubro de 2019, inícios de novembro, cumprindo a condição de que ele estava qualificado. Quatro meses antes, ainda faltava fazer imensos testes, pelo que foi necessário reotimizar todos os processos. Para ter uma ideia, um teste, se correr bem, pode demorar um mês a ser feito. Nós tínhamos de fazer 40 em quatro meses, incluindo os relatórios”, explicou o engenheiro, que atribui o sucesso do trabalho “à equipa” que geriu.

Mas a carreira de Nuno Silva também se faz de outros projetos de renome, como o Exomars, instrumento que tem como missão investigar a geologia de Marte e procurar provas de que existiu ou existe vida neste planeta. Depois de atrasos, que impediram lançamentos em 2018 e em 2020, a expectativa é que, agora, o equipamento possa ser lançado em 2022. Nuno Silva esteve, intimamente, ligado ao desenvolvimento deste projeto, no início da última década, abandonou-o e voltou a integrá-lo, mais recentemente, mas com funções diferentes.

Gestor de projeto da Deimos Engenharia, Nuno Silva tem também como missão desenvolver o projeto que sustenta a proposta da empresa para a construção do centro de lançamentos que vai nascer na ilha de Santa Maria, nos Açores.

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