Luís Serra está a concluir “A Companhia de Ordenanças de Santiago de Bougado e a Defesa da Barca da Trofa”, um livro que retrata a resistência bougadense ao exército francês, liderado por Nicolas Soult, em março de 1809.

 Um freguês, uma bala e um canhão contra toda a ameaça emergente. A valentia do povo foi inversamente proporcional à capacidade bélica do corpo de artilharia que combateu as tropas francesas na 2ª Invasão, em locais como o Souto de Bairros, o Souto da Lagoa e na zona da Barca.

A figura do homem com o canhão dá imagem à obra de Luís Moura Serra, que decidiu “repor algumas verdades históricas” sobre a resistência do povo da Trofa ao avanço do exército francês através da travessia do Rio Ave, a 23 de março de 1809, quando o território pertencia à Maia. Uma delas é a de que o capitão Luís Carneiro, que comandava a Companhia de Ordenanças de Santiago de Bougado, “afinal sempre foi de Santiago de Bougado e não de Fradelos como algumas pessoas pensam”, explicou Luís Serra em entrevista ao NT.

O livro intitulado “A Companhia de Ordenanças de Santiago de Bougado e a Defesa da Barca da Trofa” vai ser apresentado a 5 de julho, na Casa da Cultura da Trofa, e complementa o estudo que Luís Serra, “descendente” de Luís Carneiro, fez quando trabalhou na autarquia da Trofa aquando da celebração dos 200 anos da passagem do exército francês pelo território trofense.

A obra incide na história da Companhia de Ordenanças de Santiago de Bougado que, na opinião do autor, “não era muito falada” e tinha a particularidade de “a maior parte dos seus elementos se relacionarem todos familiarmente”. “Tinham antepassados comuns e aqueles lugares da companhia estavam sempre ocupados por pessoas que, de alguma forma, se conheciam”, relatou.

Com artilharia reduzida, esta companhia conseguiu travar o ímpeto do exército francês, ao ponto de merecer uma referência no diário do general Nicolas Soult. “A minha coluna do centro viu-se detida na Barca da Trofa pelo inimigo”, escreveu Duque de Dalmácia, como também era conhecido.

Os militares invasores chegaram à zona da Trofa a 23 de março e, segundo as memórias do general Soult, saíram quatro dias depois, existindo registos de que, a 28 de março, estavam nos arredores do Porto. O exército de França foi obrigado a subir o Ave até à Ponte da Lagoncinha, em Lousado, onde conseguiram atravessar o rio.

Essa resistência é, para Luís Serra, um dos momentos-chave deste episódio histórico, já que “surpreendeu o Duque de Dalmácia”.

Outro aspeto particular é a evidência de que os portugueses “foram os primeiros a praticar a guerrilha”, ou seja, usavam o conhecimento que tinham pelo terreno para “se esconderem e atacarem de surpresa”, embora não tendo “meios eficazes para o fazer”.

A primeira parte do livro é dedicada ao “enquadramento histórico simples” da 2ª Invasão Francesa, no qual Luís Serra enfatiza “a importância da fuga do rei para o Brasil” para a evolução daquela nação.

Para além da luta que houve na zona da Barca da Trofa, a obra dá destaque à Companhia de Ordenanças de Santiago de Bougado e aos seus quatro comandantes, com “a história familiar” através de uma “ponte entre o seu passado e o futuro, ou seja, os descendentes que hoje estão na comunidade”.

Existirá ainda um terceiro capítulo com “algumas curiosidades”, com a indicação dos “sítios” onde os franceses “ficaram aquartelados” e a história de José Moreira, escrivão da Companhia de Ordenanças de Santiago de Bougado, que foi severamente torturado e morto pelos franceses, depois de descobrirem que guardava armas no celeiro. “Como sabia falar francês, alguns militares invasores ficaram em casa dele, mas quando estes encontraram as armas, acharam que ele estava a preparar-lhes uma armadilha e ataram-lhe uma corda ao pescoço, arrastando-o até Macieira da Maia. A sua cabeça ficou mesmo em frente à casa do filho dele”, relatou Luís Serra.

 

Autor pede apoio para publicar a obra

A intenção de Luís Serra é “fazer 500 exemplares e distribuir 350, gratuitamente, pelas bibliotecas municipais de Portugal Continental”. Por isso, recorreu a uma plataforma de crowdfunding (http://massivemov.com/defesadoavenabarcadatrofa), onde solicita donativos para que possa imprimir sem custos e oferecer os restantes 150 pelas pessoas que contribuíram.

“Quem quiser ajudar, pode entrar na plataforma, registar-se e dar o donativo. O meu objetivo era mesmo que a população e o tecido empresarial da Trofa apoiasse esta iniciativa”, afirmou.

Apesar de já ter dado a conhecer o projeto nas redes sociais, Luís Serra ainda não teve nenhum feedback da Trofa. “Mas já tive apoios de Viana do Castelo, Famalicão e Maia”, acrescentou. “Ao apoiar também estamos a apoiar a cultura e a terra”, frisou.

 

Capa do livro

A capa do livro, idealizada por Gonçalo Balão, pretende “demonstrara escassez bélica do corpo de artilharia tornando o canhão rústico da Companhia de Ordenanças num objeto mítico e precioso revelando-se assim no protagonista”.

“A inspiração veio pelo simples facto de admirar a nossa valentia como povo em confrontar adversidades como se fosse uma pilha resistente ao medo”, afirmou.