Do tempo em que ia regularmente à missa, antes de ter perdido a fé, principalmente nas estruturas teológicas, ministros, padres, acólitos e todos os beatos que por lá pululam (apesar de reconhecer o trabalho muito válido de outros tantos), ficaram-me as lembranças de algumas leituras que me marcaram por diversas razões.

  Uma dessas foi a de destruição de Sodoma e Gomorra, pela violência empregue no castigo, mas principalmente pela fé de Lot nos princípios humanos e morais.

Ao questionar Deus se salvaria a cidade se encontrasse lá 100 homens justos, descendo neste número ao aperceber-se da sua ingenuidade, fê-lo prometer que o faria se tivesse 1 só Justo.

Uma cidade inteira de luxúria e pecado por um só Justo.

Isto fez-me sempre pensar acerca do que vale a pena fazer pelo nosso semelhante, tendo procurado pautar a minha intervenção por este principio. Se mudarmos um só à nossa volta já valeu a nossa intervenção, apesar de , muitas vezes, não conseguirmos mudar o rumo da situação.

Pouca ambição ?

Penso que não, apenas realismo e saber que esta mudança alcançada poderá mudar outros tantos.

Por isso fico algo espantado quando vejo alguns defenderem a posição contrária, ou seja, se houver o beneficio de alguém que o não mereça deve-se questionar a justeza da medida. Vejo uma certa direita, Paulo Portas por exemplo, questionando continuamente o Rendimento Social de Inserção, com o argumento que há beneficiários que o não deveriam ser.

Certamente que terá que haver fiscalização.

Certamente que há quem aproveite um certo laxismo da nossa sociedade para usufruir indevidamente de estas medidas.

O que não estou de acordo que se questione os princípios subjacentes à medida e os benefícios, muitas vezes a diferença entre viver e vegetar, alcançados por muitas famílias que assim conseguem uma dignidade que não teriam de outra maneira.

Se há quem receba indevidamente haja coragem de os denunciar, e não de os utilizar para exemplo negativo criando ainda mais situações de discriminação social.

Não lutemos contra o RSI mas contra quem indevidamente se apropria dele.

Não lutemos contra o RSI mas contra as condições que fazem que ele seja necessário, contra este pacote laboral que vem acentuar ainda mais as dificuldades das famílias, lutemos pelo direito à saúde e à educação gratuita para todos.

Digamos com todas as letras que é imoral e obsceno candidatar-se ao Rendimento quem dele não necessite, e não criemos ainda mais estigmas em quem realmente precisa.

 

 

Paulo Queirós

pauloqcruz@netcabo.pt