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Edição 718

Quando um AVC interrompe a vida de uma família prestes a aumentar

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O dia 23 de maio de 2017 ficará, para sempre, marcado na memória de Sónia Rodrigues. Grávida de 30 semanas e numa altura em que ansiava pela chegada do primeiro filho, numa vida a decorrer dentro da normalidade, um acidente vascular cerebral veio mudar, por completo, a vida desta mulher, residente em S. Martinho de Bougado. Quer saber mais? Leia, então, este testemunho impressionante de força e vontade de viver.

Aos 35 anos, Sónia Rodrigues vivia uma das fases mais felizes da sua vida. Grávida de 30 semanas e a trabalhar normalmente, a sua rotina foi interrompida depois de uma ecografia habitual, feita no Porto.

O médico suspeitou de uma pré-eclâmpsia, devido às tensões altas que Sónia apresentava e ao facto de o bebé não se estar a desenvolver como seria desejável. “Lembro-me de estar muito inchada, mas de resto, sentia-me normal e bem disposta”, contou, em entrevista ao NT.

Acabou por ser internada e esta indicação médica acabou por ser primordial para o que se seguiu. A 23 de maio de 2017, e depois de dois dias antes ter sofrido de “dores de cabeça brutais”, Sónia Rodrigues, grávida de 31 semanas, foi vítima de um Acidente Vascular Cerebral (AVC).

“A última coisa que me lembro é das dores de cabeça e, a partir daí, tenho pequenos flashs, via pessoas à minha volta, a falarem entre elas, e sentia muito frio”, contou.

Quando Sónia acordou, já não tinha “barriga de grávida”, não conseguia mexer o lado direito do corpo, tinha a boca torta e estava extremamente confusa, balbuciando “coisas sem nexo e em francês”.

Enquanto esteve inconsciente, os médicos fizeram-lhe o parto de urgência e o bebé nasceu, prematuro, com pouco mais 1,3 quilogramas. Ao NT, Sónia admite que foi “um choque” acordar e não sentir Vasco no seu ventre. “O que me valeu foi o meu marido e a minha mãe explicarem-me o que tinha acontecido e que o bebé estava bem e a ser seguido por equipa super profissional”.

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Ao alívio por saber que o bebé estava de saúde, Sónia sentia-se, em contraponto, “assustada” por não saber como iria ser a sua vida dali para a frente. A consciência do que tinha vivenciado foi sendo construída à medida que a crença de que “daqui a um mês volta tudo ao normal” caía por terra.

Sónia foi percebendo que, afinal, a normalidade “ia ser mais difícil de recuperar”, porque “precisava sempre da ajuda de alguém” para cumprir tarefas básicas. “Marcou-me o facto de não conseguir ficar de pé (apoiada) sem acabar por desmaiar”, relatou.

Teve de reaprender a comer, a beber, a sentar-se ou a levantar-se. Ao turbilhão de emoções que a constatação de uma nova condição lhe trazia, Sónia ainda tinha de conviver com a dureza de ainda não conhecer o filho, internado noutra unidade hospitalar.

A profunda tristeza que este constrangimento lhe trouxe foi transformada em força para recuperar. Sónia mentalizou-se de que, quanto mais rápida fosse a sua reabilitação, mais rapidamente iria conhecer o seu Vasco. “Comecei por lançar-nos um desafio: quem ia sair do Hospital primeiro?”

A vida fora do hospital… e de casa

Sónia Rodrigues esteve dois meses internada no Hospital de Santo António, no Porto. Dessa altura recorda a colega de quarto, “a dona Fátima”, uma “pessoa adorável” com quem ainda mantém contacto e outra doente, que acabou por falecer.

Durante a estadia no hospital, Sónia acabou por se mentalizar que o marido “estava a sair-se muitíssimo bem” face a esta contrariedade. “Ele foi essencial. Desdobrou-se em quatro, fez o papel de mãe, de pai, de cuidador, de marido, de psicólogo…foi o nosso pilar. Segurou todas as rédeas, todas”, elogia.

Quanto ao jogo do “quem sai primeiro”, foi o pequeno Vasco quem “ganhou”. Sónia saiu uns dias depois, mas não para casa. A sua condição necessitava de apoio suplementar, por isso, foi recebida pelos profissionais do Centro de Reabilitação do Norte (CRN), de onde guarda muito boas memórias.

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“Foi um sítio fantástico, a todos os níveis. Eu sabia que só poderia lá ficar, no máximo, até dois meses e que podia sair aos fins de semana. Então, arregacei as mangas e dediquei-me completamente à minha reabilitação”, contou.

Neste espaço, ao qual apelida de “espécie de bootcamp”, Sónia passou por diversas fases. “Logo no primeiro dia, a enfermeira, ao ver os meus atacadores desajeitados, deu-me umas dicas para apertar os cordões, pois a minha mão direita mexia-se muito pouco e não conseguia segurar nada”.
Na terapia ocupacional, identificou as “novas” barreiras que tinha em casa e aprendeu a contorná-las. E essas barreiras eram ações tão simples como “vestir o bebé, pendurar roupa no estendal, cozinhar ou usar o computador novamente”.

Uma das faculdades que teve de trabalhar “mesmo muito” foi a fala, uma vez que a memória “não retinha muita informação” e “tinha a língua presa”. “Não conseguia dizer certas palavras ou sons e, aí, a terapeuta orientava-me para fazer exercícios em frente ao espelho”, contou.
Quanto à fisioterapia, a recuperação foi como uma corrida de contrarrelógio: “Na primeira semana, estive numa cadeira de rodas, na segunda deixei a cadeira e passei para uma bengala com quatro apoios e na terceira já conseguia andar sozinha”.

Nos tempos livres, aproveitou para fazer trabalhos manuais, aprender a escrever com a mão esquerda e partilhar muitas vivências com os outros doentes. “A entreajuda foi fundamental. Desde ver pessoal a rir, a jogar cartas, a fazer cavalinhos com as cadeiras de rodas, a contar as suas histórias… a pôr de lado, por momentos, os seus problemas. São todos heróis aos meus olhos”.

Depois de dois meses no CRN, de onde podia sair aos fins semana, Sónia Rodrigues deparou-se com uma nova realidade: o regresso definitivo a casa. Este cenário “foi assustador”, não esconde, mas ao mesmo tempo foi revelador, porque saiu a andar, a falar e a mexer a mão. “Já podia pegar no meu bebé, sentir o seu cheirinho, vesti-lo, dar-lhe o biberão. Aproveitei tudo isso e muito mais”, confessa.

Ao mesmo tempo, apercebeu-se da “falta de acessibilidades e da sua importância” para muitas pessoas, por isso filiou-se na Associação Salvador, instituição particular de solidariedade social que atua na área da deficiência motora, na qual tenta contribuir para que haja acessos para todos e sensibilizar a população.

Um processo em desenvolvimento

Neste processo a que Sónia metaforiza de viagem em curso, foi essencial manter um pensamento positivo. A realidade não é, nem será, a perfeição, uma vez que o AVC trouxe-lhe sequelas. “Todo o meu lado direito ficou com menos força e ‘manco’ ao caminhar. As sequelas invisíveis ainda se mantém como o cansaço físico e psicológico, algo que ainda estou a tentar lidar e trabalhar”, confessou, sem deixar de sublinhar que todas as conquistas conseguidas até agora são o mais importante, assim como a vontade de “não parar”.

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Sónia Rodrigues mantém uma vida ativa, através de um contributo social, que passa por “participar em várias iniciativas do Portugal AVC, através dos grupos de ajuda mútua, nomeadamente o GAM do Vale do Ave, onde é dada voz aos sobreviventes do AVC e apoio aos cuidadores. Em escolas, por exemplo, sensibiliza para a prevenção, dando a conhecer os sinais de um AVC e os “três F” – Face, Fala, Força – e partilhando o seu testemunho de forma a alertar os jovens de que o que viveu “pode acontecer a qualquer um” e de que “há vida após o AVC”.

“Viver depois de um AVC é uma constante aprendizagem. O que eu fazia e que agora não consigo fazer da mesma maneira, tento contornar ou arranjar uma solução. Exige mais de mim, mas tenho tentado lidar da melhor forma. Sinto-me bastante diferente, uma pessoa nova que vive mais o presente, que eu aprendi a amar”.

Aprendamos também com a Sónia.

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Edição 718

Poliglota

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Apesar de ser defensor do que é nosso, daquilo que simboliza a nossa Nação e de sentir-me também dono da língua que falo e que escrevo, isso nunca invalidou uma vontade clara de aprender o “Inglês”.

E são duas as razões principais. A primeira, porque na escola não gostava das outras opções, o “Francês” e o “Alemão” e a segunda, por vergonha.

Vergonha de fazer as mesmas “ceninhas” que amigos meus faziam quando em plena pista de uma discoteca tentavam acompanhar as músicas mexendo os lábios simulando um inglês, que pouco sabiam, que não encaixava nas letras, sendo pior do que uma novela venezuelana traduzida para brasileiro. Por diversas vezes, quando gingava o meu corpo de um lado para o outro, de cervejinha na mão e com o radar ligado no modo “fêmea”, e um amigo se atrevia a abrir a boca quando nem o playback de um “yes” conseguia fazer, eu, disfarçadamente, ia dando uns passos para o lado e olhava pare ele como se não o conhecesse de lado nenhum e comentava com a miúda do lado, “Que parolo!”.

Mas antes disto e ainda muito criança, o que eu gostava mesmo era de falar a língua dos animais. Autodidacta, aprendi a miar para os gatos, a ladrar para os cães, a cacarejar para as galinhas, a roncar para os porcos (língua em que me tornei um “expert”), a relinchar para os cavalos,…, faltando-me rugir cara a cara com um leão! Toda esta lógica só foi quebrada uma vez, quando na comunhão de um primo mais velho, fui apanhado a mugir para um passarinho, depois de beber uma cerveja às escondidas debaixo de uma mesa.

Agora adulto, um destes dias quis ir mais além de quem estuda línguas mortas, como o aramaico ou o latim, e mergulhei nos primórdios da língua indo ao jardim zoológico praticar o meu guinchar com um macaco.

No portão de entrada, um cartaz a anunciar o desconto de 80% para quem conseguisse imitar um cavalo. Consciente do meu saber e das minhas capacidades, imitei um híbrido de elefante com rinoceronte a discutir com uma couve. Perante a estupefacção da senhora da bilheteira entrei de graça!

Dirigi-me lesto para a jaula do macaco. Pachorrento, ele dormia.

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  • Acorda, pá! – gritei.
    E com o barulho, ele acordou.
     – U,u,u,u,u,uuuuuuuu,u,u,u,u,uuuu,u,u,u,u! – guinchei, num orangotangês erudito.
  • Pareces parvo, ó humano! – responde-me o macaco.
  • Ui, tu falas! – exclamei mais admirado do que se houvesse um consenso político em Portugal.
  • Sim, falo, ó parvalhão!
    Perante o insulto não me deixo ficar e respondo-lhe – Parvalhão és tu, eu tenho vergonha de descender de vós!
  • E nós macacos temos vergonha de ser ascendentes do Humano! Sois uns animais!
    Sem querer mais conversa com o parente, despeço-me num orangotanguês coloquial – U,u ,u uuu, u, u – e viro costas.
  • Pane…! – chamou-me o macaco.
    No regresso a casa, para relaxar da má experiência que foi a conversa com o macaco, tomo o caminho que atravessa o bosque. Aproveitei para praticar as palavras assobiadas das árvores e as palavras das plantas empurradas pelo vento! Cheguei a casa convicto de que percebia todos os seres do mundo e ouço barulho ao fundo, na sala.
  • Zé, já chegaste? Anda cá. – chamou-me a Cristina – Estas são as minhas amigas. – diz-me, apresentando-me, uma a uma.

    Para parecer simpático deixei-me ficar com elas cinco minutos, que me fizeram perceber que continuo a não compreender o dialecto feminino!

    Saí de casa e voltei ao jardim zoológico, para conversar com o macaco.
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Memórias e Histórias da Trofa: As festas de Nossa Senhora das Dores em 1920

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As festas em honra de Nossa Senhora das Dores são uma marca do ADN da cultura trofense e parte da sua identidade cultural. É por isso importante perceber a evolução e o impacto destas festividades ao longo dos tempos e obviamente reforçar que a sua importância se perde na fita do tempo e das memórias.

Recuando no tempo, até 1920, concretamente a 21, 22 e 23 de agosto de 1920, anunciou a imprensa local que esta festividade não tinha apenas eco nas redondezas, mas também em toda a região Norte. O jornalista do Jornal de Santo Thyrso irá ser mais expansivo relativamente aos impactos da festa na região, referindo que a Romaria da Senhora das Dores era das mais importantes do país, permitindo assim um impacto mais global e que certamente despertaria curiosidades na sociedade que iria dizer presente.

No dia 21, o programa das festas teria início com uma descarga de foguetes, com a atuação de duas bandas de música, sendo uma Bombeiros Voluntários de Famalicão e por último da Infantaria 18, unidade militar instalada na cidade do Porto. As duas bandas iriam animar o arraial noturno e a sua atuação ira ser acompanhada do lançamento de foguetes.

No dia seguinte, o programa era bastante parecido ao do dia anterior, havendo apenas alguns atos religiosos, um tipo de eventos que não acontecia no dia anterior, mantendo-se a atuação das bandas de música para concretizar o plano profano. No último dia destas festividades, iria decorrer uma atuação da Banda de Música dos Bombeiros Voluntários de Famalicão que atuou igualmente em dias anteriores do programa como também a realização da feira de sementes que iria permitir momentos de convívio e até mesmo de namoricos, terminando a festa com uma nova descarga de morteiros.

Atendendo a ter-se passado 100 anos da edição festa que surge relatada no presente texto, um importante momento para relembrar ou até mesmo escrever uma página de história local e compreender a evolução das festividades.

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