atanagildolobo

“A liberdade de que falam é a do capital/O seu «mundo livre» é a livre exploração”

Excerto do Salmo 57 de Ernesto Cardenal

Ouço-os na Rádio e na TV e leio-os nos jornais. Repetem-se, repetem-se… Às vezes até parecem zangados uns com os outros. Que é necessário cortar na despesa (entendo-os bem – significa cortes salariais e despedimentos, lá no fundo), dizem uns (PSD e CDS). Que é necessário aumentar as receitas (significa subir o IRS, o IVA, o IMI, taxar as SCUT), dizem outros (PS). Parecem mesmo em posição oposta. São óptimos actores. Agora com a conversa do orçamento entraram em acusações mútuas, ora fazes chantagem, ora aceitamos, ora não, vem aí o FMI…já não vem…segue o TGV…não segue…viabilizamos o orçamento…não viabilizamos…enfim, um chorrilho de lérias. Tudo cenas que “vão no Batalha” para enganar quem trabalha, quem produz, quem chega à noite cansado e conscientemente reflecte: “ganhei vinte no meu dia de trabalho, mas produzi cem. Onde estão os oitenta?” A breve trecho se entenderão facilmente no essencial, como se entenderam no PEC I e no PEC II. E prosseguirá esta ofensiva tirana contra quem trabalha, que levará inexoravelmente ao empobrecimento do país que, no fundo, é o empobrecimento dos trabalhadores, dos desempregados e dos reformados. Depois de pintarem a cena de negro, mais escura que a “Vista de Toledo”, célebre quadro de El Greco, em que a cor predominante é o preto, sobretudo no céu, transmitindo o pesadelo da existência da Inquisição, apontam e pretendem sempre a mesma solução: o sacrifício dos mais pobres. Por acaso ponderam a hipótese de taxar devidamente os bancos que têm lucros avultados? Por acaso reflectem sobre o aumento de IRC para as grandes empresas aliviando as pequenas e médias? Qual é a lógica de salvar um banco, injectando dinheiro de todos nós e não salvar uma empresa que tem 500 ou 1000 trabalhadores? Em qualquer caso porque não se nacionaliza o banco ou a empresa, garantindo a boa aplicação do capital a favor do país? Estas perguntas não obtêm resposta de PS, PSD ou CDS, nem dos inerentes ideólogos, pois surgem da constatação óbvia da luta de classes e da questão ideológica. Existe com certeza outro caminho. Por exemplo. O Partido Comunista Português (PCP) iniciou na Festa do Avante uma campanha nacional que vai correr o país em inúmeras iniciativas sob o lema “Portugal a produzir – emprego, soberania, desenvolvimento”, apontando soluções para a crise no sentido oposto ao que vem sendo seguido, onde se propõe uma política em defesa e promoção da produção nacional que concorra para alcançar um modelo de substituição de importações por produção nacional, onde se fomente um plano de industrialização de Portugal, aproveite e potencie todos os recursos nacionais de forma a garantir a soberania alimentar, o pleno emprego e o emprego com direitos, onde se impulsione o mercado interno sem desguarnecer as exportações. Por exemplo, enquanto eles discutem o corte nos salários ou a subida dos impostos (vai dar tudo ao mesmo), o PCP chama a atenção para um dos nossos défices: o agro-alimentar, e diz. Combater este défice é o mais urgente, por motivos estratégicos mas também por ser aquele que mais rapidamente poderá ser superado. Pergunta o PCP se alguma vez os outros (do CDS ao PS) fizeram um estudo no sentido de calcular qual o acréscimo do emprego na indústria, serviços e comércio por cada posto de trabalho criado na agricultura, produção animal, silvicultura e pesca? Tese importantíssima pois um reforço produtivo nesta área conduziria sempre a uma maior produtividade nas outras áreas e consequentemente a um aumento significativo do emprego. O défice no agro-alimentar atinge 3708 milhões de euros, uma vez que em 2009 importamos 6079 milhões e exportamos 2371 milhões. A política de direita que vem sendo seguida apostou na especulação financeira, provocou o abandono das terras, o desinteresse pelas capturas do pescado e a desindustrialização. A política de direita do CDS ao PS obrigou o país a comprar lá fora parte do que poderia produzir cá dentro. A liquidação da propriedade fundiária nos campos do Sul, com uma nova reforma agrária e uma racionalização fundiária pelo livre associativismo no Norte e Centro, são factores fundamentais para uma genuína soberania alimentar. Um forte sector empresarial do estado onde, por via da nacionalização ou negociação adequada, a banca constitua um elemento decisivo no escoamento de recursos para as actividades agrícolas e piscatórias é outro pressuposto essencial. A banca, nesta política de direita, vem fazendo o contrário, mostrando uma forte disponibilidade do crédito para as actividades imobiliárias, alugueres e serviços prestados às empresas e balúrdios de euros concedidos aos especuladores. Para fomentar e desenvolver a actividade produtiva nada ou quase nada. Claro que Portugal não está condenado ao fracasso. Precisa é de uma política patriótica, verdadeiramente de esquerda e de autêntica liberdade. Persistindo na politica deles (CDS, PSD, PS) ” a liberdade de que falam é a do capital/o seu «mundo livre» é a livre exploração”.

Guidões, 25 de Setembro de 2010

Atanagildo Lobo