Carlos Neves, presidente desta associação, marcou uma conferência de imprensa para alertar para a má situação em que os produtores de leite se encontram. 

Este último ano foi muito complicado para os produtores que estão constantemente “a perder dinheiro, acumular prejuízos, acumular dívidas aos fornecedores, sem conseguir, em muitos casos, amortizar as dívidas feitas
nos bancos para investimento”, afirmou o presidente. Aproveitou ainda o momento para “lançar uma série de propostas”, onde consta “uma maior participação dos produtores nas cooperativas e nas organizações”, “uma gestão mais rigorosa, de acabar a guerra da indústria com a distribuição” e de “haver uma maior ação do governo, uma atuação e não apenas fazermos umas reuniões gerais”. “Nós recebemos uma pequena ajuda, um complemento à baixa do rendimento, e o que está previsto na reforma da PAC, Política Agrícola Comum, é que essa ajuda desapareça quase completamente”, lastimou o presidente.

Para que os produtores de leite possam continuar com a sua atividade no próximo ano, são necessárias alterações. Uma delas seria o “aumento ao preço do produtor, na ordem dos 3 a 4 cêntimos”, porém não é esse o desfecho que preveem, visto que no início do ano haverá “uma descida de preço”. Carlos Neves diz que o aumento não teria que ser repercutido ao consumidor mas sim “distribuído”. “O que nós pedimos é um pouco de justiça, na distribuição dos sacrifícios, uma parte ao consumidor, uma parte na distribuição, uma parte na indústria e ao produtor”.

Caso a situação não se altere, as previsões para o próximo ano não são favoráveis, pois os produtores preveem “um ano difícil” e ainda não se sabe quantos irão abandonar a produção de leite. “Já não é aquele produtor que tem duas vacas, que leva o leite ao posto e que já tem poucas condições que vai fechar, é aquela vacaria que tem centenas de vacas, que até comprou as vacas do senhor que fechou, mas que também não consegue pagar a prestação ao banco e que está dependente do fornecedor. O fornecedor tendo crédito prefere dar alguma margem ao produtor, para o produtor ir trabalhando e pagar a prestação, do que estar a executar. Depende do crédito que os fornecedores poderem dar, da paciência e da resistência. Mas o caminho é um caminho lento para o abismo se não for invertida a situação”, lamentou Carlos Neves.

Jorge Oliveira, proprietário da Quinta de Santo Isidro, também se queixou das dificuldades que passa, pois o dinheiro que ganha na produção do leite, serve para pagar as dívidas que existem. Na sua opinião esta situação não melhorará enquanto os preços baixos continuarem. “Temos que viver um pouco às custas das cooperativas que nos têm fornecido os produtos a créditos, a vermos o dia que temos dinheiro para pagar, porque não  conseguimos viver do dinheiro que recebemos com a produção de leite. Hoje já recebemos o dinheiro do Regime de Pagamento Único, RPU, e há que ver se conseguimos pagar algumas dívidas. Trabalhámos o ano todo a crédito para ver se no fim do ano temos um bocadinho de dinheiro para pagarmos as dívidas”, declarou. Jorge Oliveira também é da opinião que enquanto houver uma política de preços baixos e subsidiados não haverá  melhorias nesta situação.

E por causa desta má fase que os produtores de leite passam, a diminuição do número de vacas tem sido a solução para cortar nos gastos. “Já tive cem vacas em ordenha e neste momento tenho 50. Tenho vindo a diminuir para tentar reduzir nos custos, alimentar os animais à base dos produtos que temos da exploração e adquirir o menos possível matérias primas e rações, que num ano para cá tem tido uma subida de 110 euros por tonelada que, refletido no preço de leite, dá a volta de quatro cêntimos de perda no rendimento”, afirmou o proprietário da Quinta Santo Isidro.

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