A principal virtualidade extraída da recente, e ainda operativa, "Greve dos Camionistas" (ou das Transportadoras, se quisermos maior exactidão), centra-se, indubitavelmente, na demonstração prática do que pode, hodiernamente, constituir uma carestia de alimentos e combustível.

 Os relatos de armazenamento dos ditos alimentos e combustíveis pelo comum cidadão português sucedem-se. São criados autênticos stocks de prevenção ao que aí vem. E bem serão precisos, a confirmar-se a sobranceria do actual Governo, condimentada com certos laivos de desprezo pelo que o bloqueio significa para o país. Na verdade, para além de nas principais cidades os combustíveis derivados do petróleo já rarearem, para além de bens de primeira necessidade, como leite, arroz, pão, carne, peixe, frutas e legumes, também o aeroporto da Portela está semi-inanimado, consequência do fim da reserva de combustível para abastecer os aviões comerciais.

Pese embora representarem o principal sector afectado, de forma assaz séria e grave, os agricultores, a exemplo do que experimentaram já os homens ligados à pesca, abalançam-se para, também eles, abraçarem esta forma de luta. Segundo a CAP (Confederação dos Agricultores de Portugal), os agricultores "reivindicam exactamente o mesmo que os camionistas, gasóleo profissional ao preço de Espanha", e custos "mais baixos para os factores de produção".

Ora, quem circula nas estradas portuguesas, tem assistido nos últimos dias ao formigar de "piquetes" de camionistas que tentam dissuadir colegas seus a seguirem a sua marcha. Apesar de podermos subscrever, no essencial, os motivos e a substância da inactividade das transportadoras de mercadorias, formalmente este género de manifestação e de vincar posições levanta-nos sérias reservas. É uma forma de luta com o seu quê de desrazoável, para não dizer já de ilegal. Agressões, pedradas, incendiamentos e atropelamentos à parte, sempre se dirá que estes actos não têm tanto de greve, mas mais de "lock-out", porquanto parecem ser os empresários a emitir ordens aos seus camionistas para deixarem de prestar o seu trabalho, impedindo-os de circularem nos camiões.

Deste modo, forçoso é concluir que o Governo não tem coragem. E, consequentemente, vê reduzir-se o seu ângulo de manobra. Não basta ao executivo enviar, a espaços, forças de segurança "de choque" ao encontro dos camionistas – a propósito, o Governo do Professor Cavaco Silva já o havia experimentado na sua última legislatura, nomeadamente no episódio da Ponte 25 de Abril, e deu-se mal. É necessário prover de resposta quem está indignado com o ponto de insustentabilidade a que a situação chegou: e indignados não estão apenas os camionistas, outrossim todos os portugueses. Importa sublinhar que a indignação dos portugueses não se prende apenas com a escalada do preço dos combustíveis (que poderia, em grande medida, ser atenuada por uma redução fiscal), mas também com a absoluta passividade do Governo para com a situação de paralisação do país. Seria possível e desejável que o Senhor Primeiro-Ministro tivesse, ele mesmo, já tomado em mãos este assunto e ordenado accionar uma plano de emergência nacional, que garanta a eficácia dos serviços essenciais e abastecimento dos bens de primeira necessidade, para impedir mais este tiro no pé ao país que trabalha e que, a bem do seu sustento, necessita continuar a trabalhar. Pois esse é um país sem outra forma de luta que não seja exercer o seu direito à indignação, e, no momento próprio, o voto.

Helder Reis