Três anos depois, um referendo volta a deixar a União Europeia em choque, com os irlandeses a rejeitarem o Tratado de Lisboa, um «não» que o primeiro-ministro português, José Sócrates, encarou como uma derrota pessoal.

   A vitória do "não" ao Tratado de Lisboa, no referendo da Irlanda, deve ser respeitado por todos. Deve-se ser democrata e não começar uma diabolização da Irlanda por este resultado do referendo.

Quando há um referendo deve ser respeitado o resultado e se os irlandeses votaram negativamente é porque tiveram as suas razões. Em democracia quando se chama ao povo soberano, deve ser respeitado sempre e não só quando se está de acordo com ele.

A Irlanda, por motivos constitucionais, é o único país da União Europeia a efectuar um referendo sobre esta matéria e talvez por isso mesmo, aproveitou a circunstância para dar um aviso: A Europa só pode avançar com todos!

Com este aviso, a Irlanda fez o que no passado recente, já tinha feito: dar um forte sinal crítico e obrigar a uma negociação; ou de excepção para a Irlanda, ou de alterações ao tratado, para obter no fim um resultado muito melhor.

A construção europeia não pode ser feita por decreto, não é um processo automático, tem que se contar com os povos, pois não pode ser feito sem eles nem contra eles. A construção europeia, faz-se também com explicações de como se efectuam os avanços e deve-se confiar nos cidadãos.

Quando os povos sentem que a Europa é feita sem eles, emitem um sinal. Foi o que os Irlandeses fizeram, emitiram um sinal negativo e provavelmente terá que se negociar excepções ou alterações, em função deste resultado. Quando há uma dificuldade, é preciso ultrapassá-la com inteligência.

Para quem não se lembra, é bom relembrar que no plano interno, o primeiro-ministro de Portugal esqueceu-se da promessa eleitoral de convocar um referendo sobre esta matéria e nunca o fez. Esqueceu-se desta promessa, como de outras.

José Sócrates, veio a terreiro considerar uma derrota pessoal, o "não" irlandês, dado ter-se empenhado no tratado, mas defendeu que o processo de ratificação deve continuar nos outros países e que é preciso encontrar uma solução que responda e resolva o problema agora criado.

Para José Sócrates, "a solução terá que se basear no que foi o acordo dos 27 Estados-membros, porque a resposta para os problemas da Europa encontra-se no Tratado de Lisboa" e defendeu que "aqueles países que ainda não tenham ratificado o Tratado devem continuar com o processo de ratificação".

Sem margem para dúvidas, este resultado provocou um profundo desapontamento no primeiro-ministro de Portugal e este "não" da Irlanda, ao Tratado de Lisboa, deve ser encarado também como uma derrota pessoal de José Sócrates, devido ao seu forte empenhamento e que ele próprio admitiu esta derrota pessoal e até, com alguma ambiguidade, chegou a afirmar: "O Tratado de Lisboa não é importante para a minha carreira política, foi importante e decisivo na minha carreira politica". É, José Sócrates, no seu melhor!

Não será por mais esta derrota de José Sócrates que ele vai cair, mas sim pela grave crise económica que o país atravessa à qual ele não tem sabido dar resposta nem capacidade de a ultrapassar. O país está numa situação gravíssima e os socialistas que nos governam não querem ver!

José Maria Moreira da Silva

moreira.da.silva@sapo.pt