A luta de classes, pese embora todas as novas "doutrinas", continua viva e é, sem dúvida, o verdadeiro motor da História. Foram as grandes rupturas, abruptas e radicais, sabe-se hoje, que produziram transformações profundas na evolução do homem. Do mesmo modo, foram as grandes convulsões sociais e políticas, as revoluções, que catalizaram o homem na conquista de mais direitos, de mais justiça social e de uma mais equilibrada distribuição da riqueza, catapultando a sociedade, originando direitos e conquistas que, doutra forma, levaria séculos a serem alcançados. Em Portugal bons exemplos do referido são a revolução de 1383-85 e o 25 de Abril de 1974.

   Hoje a luta reivindicativa constitui um campo mais amplo. Não se reduz apenas à questão laboral, embora a luta pela preservação de direitos, por mais emprego e melhores salários continue a ser a dominante máxima. No entanto, os problemas que afectam amplos sectores da população como a manutenção e melhoramento do Serviço Nacional de Saúde, a Justiça, o Ambiente, ampliaram substancialmente o leque dos sectores que protestam. Assim é notório o descontentamento dos profissionais da justiça, da administração pública, do professorado. É manifesto o desagrado das populações pelo encerramento de serviços de saúde e de urgência. São conhecidas as batalhas de conjuntos dispersos de populações contra a passagem de linhas de alta tensão, contra as incineradoras, pela preservação das zonas ecológicas e agrícolas, pela qualidade da água e do ar…

Mas novidade é a convocação para o próximo dia 1 de Março de uma manifestação em Lisboa designada Marcha – Liberdade e Democracia promovida pelo Partido Comunista Português, aberta a todos quantos, preocupados com a situação do País, querem um futuro de liberdade, democracia e progresso social. Quase não temos memória de uma manifestação convocada por um partido político. Terá o PCP motivos? A Lei dos Partidos visa a imposição de um modelo único de funcionamento partidário. Aprovada pelo bloco central PS/PSD e pelo PP reflecte a arrogância politica de querer impor aos outros o que acham bom para eles. Lembram exactamente as guerras do Iraque e do Afeganistão, onde as potências belicistas, pela força dos bombardeamentos em primeiro e pela ocupação em seguida pretendem impor um sistema aos cidadãos chamado de democrático. Mas como se pode implementar a democracia pela força?! Só através da ditadura e da força. É o que fizeram EUA e companhia … É o que pretendem PS, PSD e PP… Impor um modelo de funcionamento aos outros partidos, nomeadamente ao PCP. Ao obrigar através da lei a " …formatação rígida… em questões como as formas de votação, os procedimentos eleitorais internos ou o universo de órgãos de direcção, a par do retomar de traços de judicialização da vida partidária, constitui uma afronta ao livre prosseguimento da actividade dos partidos, que a constituição consagra como principio fundamental", esclarece uma nota da Comissão Política do PCP. Porquê esta cisma de querer moldar as coisas às suas medidas, como se fossem os detentores da verdade? Porquê tanta sobranceria? Tanta altivez? Tanta arrogância politica? Será a mesma que leva José Sócrates a dizer, quando confrontado por protestos sociais, nas suas deslocações: «… que são sempre os mesmos. Conheço-os bem como militantes de um determinado partido…», referindo-se obviamente ao PCP, desvalorizando o mal-estar social em crescendo e a justeza dos protestos. Aliás essas afirmações repetidas e repetitivas de Sócrates fazem lembrar outras do mesmo género de outros tempos em que Salazar e Caetano identificavam toda a actividade contestatária como subversiva e acção dos comunistas. Quem protestasse era comunista.

Mas saibam os Doutores Sócrates e Menezes que é apenas aos militantes de um determinado partido, nomeadamente aos militantes do PCP, que cabe o direito soberano de decidir como funciona ou deve funcionar esse partido. Obviamente que as poderosas finanças dominantes e o os braços políticos que as servem pretenderiam um PCP dócil e submetido ao poder e à ideologia dominante da globalização, a nova cosmética do capitalismo. Mas nós sabemos, eu e o leitor, que onde houver um trabalhador despedido, um reformado em dificuldade, uma mulher discriminada… estará a solidariedade do PCP. Não apenas como auxílio na solução imediata do problema, mas sobretudo como organização, trabalho, voz e luta pela transformação colectiva da vida e de mudança para uma sociedade efectivamente democrática, do ponto de vista social, económico, cultural e político.

Não me vão agora fazer acreditar que num país em que existe mais de meio milhão de desempregados, dois milhões de pobres, um salário mínimo pouco acima dos 400 euros, com todos os problemas sociais decorrentes do não funcionamento da justiça, da saúde e da educação existe democracia? Pelo que aquilo que pretendem impor aos outros não é democracia, mas sim formas de controlar e delimitar as vozes partidárias incómodas para que, justamente, haja ainda menos democracia. Por isso vamos à Marcha – Liberdade e Democracia.

 

Atanagildo Lobo.