Ninguém sabe apontar-lhe defeitos. Na verdade, atribuem-lhe apenas virtudes. "Tinha o dom da palavra", dizem os paroquianos. O padre que, no passado sábado, foi levado do altar pela polícia quando celebrava um baptizado em Santo Tirso, não levantava qualquer suspeita. "Como é que se podia desconfiar de uma coisa tão bem feita?", espanta-se Maria Ramos.

Agostinho Coutinho Caridade, de 34 anos, natural de Barcelos, andou dois anos pelo concelho da Trofa. Terá celebrado dois casamentos e um baptizado, segundo rezam os livros da paróquia de Alvarelhos. Nas missas, "emocionava as pessoas", recorda a paroquiana.

"Uma vez, ele pediu na igreja. Como eu não tinha na altura, disse que dava ao outro padre [da paróquia]. Mas ele não quis que eu desse ao padre Ramos", conta uma mulher de 80 anos sobre peditórios que o falso padre fazia Padre Ramos diz que o Agostinho distribuiu cartaz sobre crianças desaparecidas em nome de crianças desfavorecidas em Angola. As angariações eram justificadas aos crentes de várias formas. Maria Ramos relata que o falso padre "pediu dinheiro para ajudar pessoas sem braços e pernas. E era gente a dar aos 20, 50 euros…". O mesmo homem terá, ainda, distribuído cartazes, em Alvarelhos, na Trofa, e em Braga, com fotografias de oito crianças desaparecidas. Entre elas a de Sara Reis, adolescente que desapareceu de casa, naquela freguesia trofense, no passado mês de Fevereiro. O argumento era o de que os donativos seriam usados para ajudar nas investigações. No cartaz era indicada uma conta da Caixa Geral de Depósitos onde o dinheiro deveria ser depositado.

"Apareceu em 2004"

"Agostinho Caridade surgiu pela primeira vez na paróquia de S. Martinho de Bougado, Trofa, em Dezembro de 2004", conta o padre de Alvarelhos, José Ramos. Após um interregno, que justificou com uma estadia em Angola, regressa em Junho de 2005 alegando que estaria em Portugal para tratar um paludismo contraído em África. O então pároco de S. Martinho, Joaquim Ribeiro, que entretanto faleceu, recebeu-o. "Na altura, o senhor padre estava debilitado e aceitou alguns serviços" do barcelense, que "terá sido aceite sem lhe exigir uma credencial", relatou, ao JN, o actual sacerdote daquela paróquia, Luciano Lagoa. O mesmo procedimento teve o padre de Alvarelhos, quando o malogrado pároco lho indicou para cumprir celebrações sempre que o excesso de serviços exigia.

"Não pedi identificação porque ele estava a fazer serviços na Trofa", esclarece José Ramos, revelando que o indivíduo se apresentou como "João Luís Gonçalves Amorim". Presumivelmente, ninguém terá estranhado o facto de o homem ter dito que foi ordenado sacerdote na Ordem dos Camilos, em Espanha.

"Não lhe vou perdoar tão grande vergonha"

"Não lhe perdoo. É uma vergonha tão grande que nem que ele venha com todo o dinheiro do mundo lhe vou perdoar". Foi ainda atónita que Marcelina Coutinho, mãe do falso padre, falou, ao JN, do filho – Agostinho Coutinho, mais conhecido na Trofa por padre João Amorim. "Não sabemos de nada. O meu genro trouxe agora o jornal com essa história", dizia a mulher, incrédula com a novidade que o genro lhe dera. Sentado no sofá, o marido, Ramiro Rodrigues, mais contido nas palavras por estar ainda visivelmente a digerir a história, diz que o filho "tem de prestar contas à Justiça e contar tudo o que fez. Só ele pode pagar".

"Que não mo matem, mas que o castiguem bem. Não mexo uma palha para o defender", prometia a mulher, por entre suspiros e perguntas. "Porque é que Deus me deu um filho assim? Dos outros não tenho queixa e dele também não tinha, mas foi sempre o mais rebelde", desabafou . "Se ele só fez o sexto ano, como é que poderia ser padre?" O casal, residente na freguesia de Aguiar (Barcelos), garante nunca ter desconfiado que o seu quarto de oito filhos andasse a fazer-se passar por padre. "Ele já esteve na Alemanha, com um irmão. Depois, disse-nos que trabalhava no Algarve, num restaurante, e é verdade que até cozinha muito bem. No ano passado até fomos lá passar dois dias de férias, com ele", sublinhou a mãe do falso padre, que recordou, ao JN, o momento em que viu o filho pela última vez, no passado dia 7, no funeral de uma tia. Desde então, nenhuma notícia. "Nem falei muito bem com ele porque estava abalada, mas pareceu-me bem, como de costume. Agora, nem que queira, não consigo falar com ele, nunca me deu qualquer número, mas tem telemóvel. Sempre disse que, quando quisesse, ele próprio ligava", suspirou Marcelina Coutinho, que confessou não saber onde está filho. O seu paradeiro continua a ser desconhecido.

Críticas de D. Jorge Ortiga

D. Jorge Ortiga, arcebispo-primaz de Braga, em declarações ao JN, foi peremptório em classificar a pessoa de "burlão" que começou a ser desmascarado após ter recebido, há três semanas, uma carta anónima, proveniente da Trofa, que denunciava alguém, naquela zona, que se fazia passar por padre, cobrando dinheiro por objectivos religiosos.

"A pessoa em causa contactava directamente as famílias, identificando-se como sacerdote. Pelo que sei, essa pratica, embora desconhecida, era já corrente em vários sítios da Diocese do Porto", disse.

O chefe da Igreja bracarense acrescenta que aquele indivíduo, natural de Barcelos, não tinha bilhete de identidade sacerdotal, documento renovável todos os anos e que identifica um sacerdote da Igreja Católica.

No caso de Areias, e dada a impossibilidade do sacerdote local realizar o baptizado, D. Jorge Ortiga referiu que a Diocese de Braga, numa acção concertada com o arcipreste local, inteirou-se, previamente, da realização daquele ritual religioso. "Estávamos convencidos que a pessoa em causa não era sacerdote, como veio acontecer, e chamamos a Polícia para o identificar", referiu.

Quanto ao facto da pessoa em causa ter pendente sobre si várias notificações judiciais, pelo menos de Viana do Castelo e da Amadora, ao que o JN conseguiu apurar, o arcebispo-primaz de Braga escusou-se a mais comentários "Não sei de mais nada, pois estão, neste momento, a serem feitas investigações".

Magalhães Costa /Liliana Rodrigues/Ana correia Costa/jn