Decorreram cinco anos no passado mês de Março que as forças de ocupação bombardearam e ocuparam ilegalmente o Iraque. Os EUA, com armas interditas e não convencionais, desde o urânio empobrecido às armas de fragmentação, invenções da industria de morte e devastação, numa execução malvada e ignóbil, responsável por mais de um milhão de mortos, cinco milhões de exilados e deslocados, perpetraram inúmeros crimes contra a Humanidade.

   A posterior aplicação da tortura e outras atrocidades, os assassinatos selectivos, a carnificina de populações civis, o recurso a prisões ocultas, os julgamentos sumários com condenações à morte e os aprisionados sem direitos em Guantánamo, consubstanciam sucessivas e profundas violações dos direitos humanos. « Centenas de pessoas são mortas mensalmente na violência omnipresente, enquanto um número incalculável de vidas são ameaçadas todos os dias pela pobreza, cortes de electricidade e de abastecimento de água, falta de alimentos e de remédios, e pela crescente violência contra mulheres e jovens raparigas», lê-se no último relatório da Amnistia Internacional sobre o Iraque com o elucidativo título « Carnificina e desespero, o Iraque cinco anos depois». Segundo o mesmo relatório, três em quatro iraquianos ainda não tem acesso seguro a água potável e um terço da população necessita de ajuda urgente para sobreviver. Metade da população activa está desempregada e cerca de 40% vive com menos de um dólar por dia. No diagnóstico, concordante com os dados difundidos pelas agências da ONU e outras instituições independentes, acresce a subnutrição infantil, que aumentou substancialmente desde a ocupação e a cólera que atinge metade das 18 províncias do país. Todos estes horrendos e sórdidos crimes da imperial politica norte-americana que tentam ceifar um povo e desestabilizaram, cindiram e desmembraram um estado soberano colocam Saddam Hussein num pedestal e apenas são comparáveis com a barbárie nazi. Pode-se afirmar que o Iraque e o seu povo estão hoje bem pior do que no tempo de Saddam. Depois, pergunta-se como Jorge de Sena no seu poema " Carta a meus filhos sobre os fuzilamentos de Goya" : «…Quem ressuscita esses milhões, quem restitui / não só a vida, mas tudo o que lhes foi tirado? / Nenhum juízo final, meus filhos, pode dar-lhes / aquele instante que não viveram, aquele objecto / que não fruíram, aquele gesto / de amor, que fariam "amanhã"…».

A ocupação baseou-se em justificativos falsos e motivos verdadeiros, e teve responsáveis, com rosto. De facto, no Iraque não existiam armas de destruição massiva, apesar de Barroso e Portas, aldrabando descaradamente, terem assegurado a existência dessas armas. Ao contrário, as ditas "provas" sobre as alegadas armas, é que foram forjadas. Não existia qualquer ligação entre o Iraque e a Al-Qaeda, como foi confirmado recentemente num relatório do Pentágono que a administração Bush tentou, sem sucesso, esconder do povo norte-americano e do mundo. Assim o nefasto crime sustentou-se em duas mentiras. Tudo com o apoio do governo português de então chefiado por Barroso e Portas. Nem sempre uma mentira muitas vezes repetida passa a ser verdade. O autêntico móbil e a real causa desta atitude perversa: o domínio do imperialismo americano na região do médio oriente e, claro está, o petróleo. A guerra pagamo-la nós todos com os nossos impostos, mas o "tesouro" fica nas mãos de meia dúzia. Nas mãos sujas dos fabricantes de armamento e de bombas, nas petrolíferas norte-americanas que, reparem no paradoxo, exportam mais de dois milhões de barris de petróleo por dia enquanto o Iraque importa petróleo. A tudo isto não se encontra alheia a União Europeia que recentemente aprovou uma resolução baseada num relatório apresentado pela deputada do PS Ana Gomes que ao patrocinar o crescimento do envolvimento da União Europeia no Iraque, ambiciona eternizar a ocupação e repartir o saque.

            A resistência à brutal ocupação e a recuperação da soberania, da independência e da liberdade são direitos legítimos e sagrados do povo iraquiano e não podem ser confundidos com terrorismo. A história demonstra que por fim a justiça, a liberdade e a luta do povo, vencerão. E povo iraquiano luta, resiste e…vencerá.

            Mas os crimes têm culpados. Sabemos que a justiça funciona mal. Há uma justiça para ricos e outra para pobres, uma justiça para os poderosos e uma justiça para os fracos. Mas no banco dos arguidos estão os autores e mandantes da guerra : Bush, Blair, Aznar, Barroso, e mais alguns ajudantes como Dick Cheney e Portas. O Povo Iraquiano acusa, os povos do mundo inteiro argúem. Os mortos incriminam. Os que ainda vão morrer amanhã exprobram. Para quando então o julgamento em Tribunal Penal Internacional?  PARA QUE SE FAÇA JUSTIÇA…

 

                                                                        Atanagildo Lobo.