Os resultados das eleições no passado Domingo em Espanha não foram particularmente surpreendentes. Quem se deparou, nas semanas que as antecederam, com uma qualquer sondagem feita por nuestros hermanos, saberia que PP e PSOE já há algum tempo dividiam o eleitorado com o Podemos e o Ciudadanos. O fim anunciado do bipartidarismo em Espanha transitou definitivamente do campo especulativo para o factual.
Sobre os resultados do PP, ainda no governo e cuja linha de actuação se assemelha em larga medida à governação da coligação PSD/CDS-PP em Portugal, o jornal El País escreveu “Ou te renovas ou te renovam”. Ganharam as eleições com escassos 27,3% mas perderam 500 maiorias absolutas (o número redondo é do jornal Expresso). Logo a seguir ficou o PSOE, partido irmão do “nosso” PS, com modestos 25,4%. Juntos, os partidos do bloco central pesam agora pouco mais que metade do eleitorado, a poucos meses das Legislativas que podem mudar decisivamente o rumo do país.
Do lado oposto aos partidos tradicionais encontra-se um rookie chamado Podemos. Um partido com um ano e meio de vida, nascido do movimento 15M, que integrou várias candidaturas cidadãs nas municipais/autonómicas espanholas e que, entre inúmeras situações em que “roubou” maiorias absolutas ao partido do poder, conseguiu fazer história na Catalunha, ao contribuir decisivamente para a eleição de Alda Colau, activista política ligada ao 15M que venceu em Barcelona, viu a sua candidata em Madrid ficar a apenas um deputado municipal do PP, que também aí perdeu maioria absoluta, e obteve outros resultados históricos noutras grandes cidades como Valência, Saragoça ou Sevilha, onde os conservadores se vêm agora forçados a fazer cedências ou a coligar-se para conseguir estabilidade governativa.
Ou se renovam ou são renovados. Uma máxima que, em certa medida se poderá aplicar a Portugal, não pela ascensão de novas forças políticas, que as há mas longe de terem a força do Podemos, mas pelo esgotamento do nosso bloco central. O projecto MPT/Marinho Pinto conseguiu causar estragos nas Europeias e funcionou como uma espécie de indicador para aquilo que poderá estar para vir. Os sucessivos escândalos de corrupção e tráfico de influências que assombram PS e PSD, a par da submissão absoluta à austeridade que castiga a maior parte da população mas que mantém as castas imunes, o fosso cada vez mais acentuado e o Estado Social em processo de desmantelamento, oferecido numa bandeja de prata aos interesses privados que sempre os cobiçaram, farão, a seu tempo, o resto do trabalho. Podemos ficar na cauda desta mudança, à semelhança de outras caudas europeias onde costumamos marcar presença, mas a nossa vez chegará.
O que vai acontecer nas Legislativas deste Outono em Espanha poderá mudar a Europa de forma radical e sem precedentes. Ao contrário da Grécia, onde o Syriza herdou uma situação caótica e um nível de dívida sem paralelo na sua história, Espanha poderá não estar no seu melhor momento mas não é um país qualquer. É uma das maiores economias da UE e possui vastos recursos à sua disposição. Se lá chegarem, Iglésias ou Rivera (Ciudadanos) não serão encostados à parede e forçados a seguir uma agenda ideológica. Podem trilhar um novo caminho que possa de alguma forma inspirar o futuro do Velho Continente. Porque este é insustentável e é apenas uma questão de tempo até que se esgote. Só espero que seja durante o meu.