Edição 525
Ou te renovas ou te renovam

Sobre os resultados do PP, ainda no governo e cuja linha de actuação se assemelha em larga medida à governação da coligação PSD/CDS-PP em Portugal, o jornal El País escreveu “Ou te renovas ou te renovam”. Ganharam as eleições com escassos 27,3% mas perderam 500 maiorias absolutas (o número redondo é do jornal Expresso). Logo a seguir ficou o PSOE, partido irmão do “nosso” PS, com modestos 25,4%. Juntos, os partidos do bloco central pesam agora pouco mais que metade do eleitorado, a poucos meses das Legislativas que podem mudar decisivamente o rumo do país.
Do lado oposto aos partidos tradicionais encontra-se um rookie chamado Podemos. Um partido com um ano e meio de vida, nascido do movimento 15M, que integrou várias candidaturas cidadãs nas municipais/autonómicas espanholas e que, entre inúmeras situações em que “roubou” maiorias absolutas ao partido do poder, conseguiu fazer história na Catalunha, ao contribuir decisivamente para a eleição de Alda Colau, activista política ligada ao 15M que venceu em Barcelona, viu a sua candidata em Madrid ficar a apenas um deputado municipal do PP, que também aí perdeu maioria absoluta, e obteve outros resultados históricos noutras grandes cidades como Valência, Saragoça ou Sevilha, onde os conservadores se vêm agora forçados a fazer cedências ou a coligar-se para conseguir estabilidade governativa.
Ou se renovam ou são renovados. Uma máxima que, em certa medida se poderá aplicar a Portugal, não pela ascensão de novas forças políticas, que as há mas longe de terem a força do Podemos, mas pelo esgotamento do nosso bloco central. O projecto MPT/Marinho Pinto conseguiu causar estragos nas Europeias e funcionou como uma espécie de indicador para aquilo que poderá estar para vir. Os sucessivos escândalos de corrupção e tráfico de influências que assombram PS e PSD, a par da submissão absoluta à austeridade que castiga a maior parte da população mas que mantém as castas imunes, o fosso cada vez mais acentuado e o Estado Social em processo de desmantelamento, oferecido numa bandeja de prata aos interesses privados que sempre os cobiçaram, farão, a seu tempo, o resto do trabalho. Podemos ficar na cauda desta mudança, à semelhança de outras caudas europeias onde costumamos marcar presença, mas a nossa vez chegará.
O que vai acontecer nas Legislativas deste Outono em Espanha poderá mudar a Europa de forma radical e sem precedentes. Ao contrário da Grécia, onde o Syriza herdou uma situação caótica e um nível de dívida sem paralelo na sua história, Espanha poderá não estar no seu melhor momento mas não é um país qualquer. É uma das maiores economias da UE e possui vastos recursos à sua disposição. Se lá chegarem, Iglésias ou Rivera (Ciudadanos) não serão encostados à parede e forçados a seguir uma agenda ideológica. Podem trilhar um novo caminho que possa de alguma forma inspirar o futuro do Velho Continente. Porque este é insustentável e é apenas uma questão de tempo até que se esgote. Só espero que seja durante o meu.



