Hoje começa a ser uma constante, a todos os níveis, ouvir-se dizer mal do presente tendo como pressupostos alguns factos e ficções do passado, mesmo que recente.

   Naturalmente que não estamos a dizer, nem vamos fazer a apologia, para que o mesmo seja esquecido. Há que ter memória! Mas de acordo com os especialistas na matéria devemos concentrar-nos em 10% do passado, 60% do presente e 30% do futuro. É que, dizem, se assegurarmos que as medidas a serem aplicadas no presente forem as correctas, então teremos o futuro bem assegurado.

 Naturalmente que um dos campos onde a "saudade" por um passado idealizado mais mexe com as pessoas é, por exemplo, o caso da moralidade. Há um sentimento bastante comum de que nunca antes a humanidade esteve tão desapegada de valores morais, e não só, como no presente. Ocorre que isso vale para o passado também. Muitos antigamente tinham o mesmo tipo de impressão, e assim sucessivamente. Mas será que todos esses valores da humanidade estão mesmo em declínio desde os primórdios? Será que cada vez mais os indivíduos se tornam seres imorais e mentirosos? Ou será que esta imagem é apenas fruto de uma característica comum da natureza humana, de enaltecer o passado para poder condenar o presente, sendo normalmente ainda mais catastrófico quanto às previsões do futuro? Continuamos a ver referido que ainda existe muita gente que acha que a sua geração é "pior" que as gerações anteriores. Será então natural perguntar-se: quais eram/são os aspectos onde o mundo do passado era de uma forma global "melhor" que o actual? Mas falemos de factos e cientes das realidades onde estamos inseridos. Deixemo-nos de utopias e de falsos idealismos! Podemos, por exemplo, comparar esta situação numa área onde muitos saudosistas costumam usá-la para atacar o suposto declínio, neste caso, moral dos nossos dias: o divórcio.

Muitos afirmam que as crescentes taxas de divórcio são forte evidência – senão prova – do total desapego aos sólidos valores morais. Mas que valores seriam esses? A lealdade acima de tudo, inclusive da felicidade? A submissão da mulher que permanece casada porque seria vítima dos mais pérfidos comentários? A obediência da mulher aos pais, do tempo em que nem sequer tinha a liberdade para escolher o seu próprio marido? Pois, por esta óptica, não vemos declínio algum, mas sim uma evolução moral, que garante maior liberdade de escolha para os envolvidos no casamento, que deve ser visto como algo de bom e sempre voluntário, e não um sacrifício. Que fique bem claro que depositamos a máxima importância na família e no papel que esta instituição desempenha na sociedade. É bom para os filhos que tenham os pais juntos no mesmo lar, se possível. Mas nem de perto é essencial para a criação de adultos felizes. É muito melhor ter pais separados que se entendem bem do que marido e mulher brigando constantemente dentro de casa, sob os olhares assustados dos filhos. Na nossa opinião, a verdade dura será sempre melhor do que a mentira hipócrita. No fundo, e em resumo, acreditamos que a ampliação do leque de escolhas dos indivíduos, nas mais diversas áreas, é que incomoda muitos saudosistas. Afinal, somos seres racionais, logo podemos tentar calcular o valor do amanhã, pesando sempre o presente e o futuro nas nossas escolhas, com realismo!

Com todo o aumento da liberdade de escolha, isso deverá gerar consequências indesejadas também, da mesma forma que muitas das nossas decisões nos podem levar ao arrependimento em certas ocasiões. Mas há que as assumir! A utilização de "não termos a memória curta" aplica-se a todos! Mas nem por isso queremos de volta os tempos passados. Pelo mesmo motivo, não vemos actualmente razões suficientes, sendo realistas e pró-activos, para o saudosismo exacerbado como é por vezes tratado o passado em detrimento do presente e do futuro.

Terminamos dizendo:

NÃO SEJA SAUDOSISTA!

Alberto Maia