População do Muro pretende não votar nas presidenciais a 23 de Janeiro. Foi colocado um cartaz junto à Igreja do Muro, onde está patente o descontentamento dos trofenses.

“O Muro está farto de ser enganado”, dizia Joaquim Nogueira à porta do café da Estação na mesma freguesia. A situação já se arrasta “há oito anos”, avançou Abel Araújo, que recorda as promessas dos governantes em relação à vinda do metro para o concelho. “É-nos feita a promessa de que na primeira fase somos beneficiados com o projecto do Metro, que entretanto é adiado para uma segunda fase e, posteriormente, vai para as calendas, eu penso que ninguém pode ficar indiferente perante uma injustiça destas”, frisou.

Por todas estas razões, a população do Muro decidiu passar das palavras aos actos e a 23 de Janeiro,  data marcada para as eleições presidenciais, não vai votar, como forma de protesto. Esta quarta-feira foi colocado um cartaz, cuja autoria se desconhece, junto à Igreja do Muro, que dá a conhecer o descontentamento não só dos murenses, mas também dos trofenses: “Os que ignoram a Trofa no caso Metro, a Trofa ignora-os em eleições”.

“Todas as pessoas do Muro estão a pensar em não votar”, avançou Joaquim Nogueira que se tivesse oportunidade de falar com o primeiro-ministro, diria: “Deixem de mentir, o Muro está farto de ser enganado e chegou a altura de nós também dizermos basta”.

“O Metro faz-nos muita falta”, garantiu Abel Araújo, que também não está de acordo com a acção das forças políticas que, segundo o murense, tem sido “praticamente nula”. Mas Pedro Fontes foi mais longe e explicou que “há inúmeras pessoas que não têm carro e que querem deslocar-se e é extremamente difícil”.

Num café repleto de pessoas, nenhum se mostrou contra esta tomada de decisão e Joaquim Nogueira, que foi convidado para fazer parte das mesas de voto, também decidiu não aceitar “em sinal de protesto”. “Este é um boicote pacífico”, concluiu.

 

“As pessoas têm direito à indignação”

Carlos Martins, presidente da Junta de Freguesia do Muro, tem conhecimento deste sentimento de revolta da população da freguesia que comanda e concorda com este tipo de “protesto ordeiro”. “Se o povo não vai votar acho muito bem. É um dever cívico ir votar, mas as pessoas também têm direito à indignação”, justificou.

Considerada uma “decisão acertada” pelo presidente da Junta, terá sido também o que pensaram os partidos políticos com assento na Assembleia de Freguesia do Muro, que não apresentaram nenhum nome para as mesas de voto no dia 23 de Janeiro. “Esta é também uma forma de protesto”, frisou o autarca. “No dia, às 8 horas, tenho de abrir as portas, se não estiver lá ninguém não há condições para se realizar a votação”, concluiu.

Joana Lima, presidente da Câmara Municipal da Trofa, garantiu não ter conhecimento “de nada em relação ao boicote”. “A Câmara Municipal, responsável pelo acto eleitoral, indicou os nomes para constituir as assembleias e as secções de voto”, explicou. A edil trofense voltou a confirmar o apoio do executivo aos murenses, mas não concorda com esta forma de luta: “Boicote acho que é um bocadinho forte para a população do Muro, tenho a certeza de que estão de boa-fé, connosco na defesa do interesse do Metro para a Trofa”. “Não recrimino desde que eles façam as coisas de uma forma pacífica e com muita responsabilidade”, reiterou.

 

Partidos estão “solidários” com os murenses

O PSD da Trofa “não concorda com o boicote” às eleições presidenciais. Sérgio Humberto, presidente da Comissão Política Concelhia (CPC) considera que “há diferentes formas de intervenção”, como “votar e demonstrar o seu desagrado”. No entanto, defende que a pretensão dos murenses “é legítima” e que “está do lado deles e de todas as freguesias do concelho”.

Da mesma opinião partilham os membros do PCP do concelho, apesar de estarem ao lado desta luta. Por isso, Paulo Queirós, membro da comissão, adiantou ao NT que preparam já a visita do deputado do partido na Assembleia da República, Honório Novo à Trofa, no sábado, às 10.30 horas, junto à antiga estação da CP da Trofa. Em seguida, os comunistas estarão na desactivada Estação do Muro.

Já o CDS-PP “compreende e está solidário com a população do Muro”, adiantou Renato Pinto Ribeiro, presidente da CPC. “Consideramos que é um direito que lhes assiste sendo a forma que entenderam para demonstrar o seu descontentamento”.

 

Deputado do CDS-PP leva assunto do Metro ao Parlamento

João Almeida, deputado do CDS-PP, levou o assunto do Metro até à Trofa ao Parlamento, em meados de Dezembro, para afirmar que o distrito do Porto “é um caso paradigmático de promessas incumpridas”.

O deputado referiu que, relativamente ao Metro, o Governo “prometeu tudo aquilo que veio a incumprir imediatamente a seguir”. “Ou seja, fez na Trofa o que faz no país, prometer e não cumprir e deixar as pessoas pior do que estavam, porque ao estar com o comboio, mesmo que não fosse o transporte ideal, era certamente melhor do que retirar a linha de comboio sem pôr a linha do Metro, deixando a população completamente pendurada”, atestou.

A 15 de Setembro de 2010, na sequência de uma visita à Trofa, deputados do PSD enviaram um requerimento ao Governo, no qual questionavam sobre o ponto de situação do processo do Metro até à Trofa.

Em Dezembro de 2010 também Honório Novo questionou o Governo sobre as implicações da decisão de cancelamento da linha do Metro para a Trofa.